Sábado, 20 de junho de 2026
Por Redação O Sul | 28 de maio de 2020
Uma série de críticas de órgãos e indivíduos ligados ao governo de Israel e de entidades judaicas foi dirigida à comparação feita, na quarta-feira (27), pelo ministro da Educação, Abraham Weintraub, entre a operação de busca e apreensão feita pela Polícia Federal, no inquérito sobre as redes de ameaças e fake news, e a Noite dos Cristais, que marcou o início da perseguição sistemática dos nazistas aos judeus na Alemanha nos anos 1930.
A Embaixada de Israel, em Brasília, postou no Twitter que “houve um aumento da frequência de uso do Holocausto no discurso público, que de forma não intencional banaliza sua memória e a tragédia do povo judeu. Pela amizade forte de 72 anos entre nossos países, pedimos que a questão do Holocausto fique à margem da política e ideologias”.
Pouco antes, o cônsul-geral de Israel em São Paulo, Alon Lavi, escreveu que “o Holocausto, a maior tragédia da história moderna, onde 6 milhões de judeus, homens, mulheres, idosos e crianças foram sistematicamente assassinados pela barbárie nazista, é sem precedentes. Esse episódio jamais poderá ser comparado com qualquer realidade política no mundo”.
Lavi também republicou mensagens do Comitê Judaico Americano, que é a principal entidade judaica dos EUA, da Confederação Israelita do Brasil (Conib) e do Museu do Holocausto de Curitiba.
O Comitê Judaico Americano repudiou a postagem feita por Weintraub, classificando-a como “profundamente ofensiva aos judeus do mundo” e “um insulto às vítimas e sobreviventes do terror nazista”. No Twitter, a organização ainda criticou a “repetida politização da linguagem do Holocausto por funcionários do governo brasileiro”.
Fundado em 1906, o Comitê Judaico Americano é uma das organizações mais antigas e influentes em defesa dos direitos civis de judeus e parte importante do lobby pró-Israel nos EUA. No mês passado, a associação já havia exigido um pedido de desculpas do chanceler Ernesto Araújo, que comparou o isolamento social para conter a Covid-19 a campos de concentração nazistas.
Weintraub usou suas redes sociais para comparar a ação da Polícia Federal de quarta-feira à ação da polícia política nazista na Alemanha de Adolf Hitler. No Twitter, afirmou que a operação será lembrada como a Noite dos Cristais brasileira — um dos primeiros atos violentos cometidos por forças paramilitares nazistas contra judeus entre os dias 9 e 10 de novembro de 1938.
No Brasil, a Confederação Israelita, por meio de uma nota oficial, também condenou a comparação feita pelo ministro, “totalmente descabida e inoportuna, minimizando de forma inaceitável aqueles terríveis acontecimentos, início da marcha nazista que culminou na morte de 6 milhões de judeus, além de outras minorias”.
“Não há comparação possível entre a Noite dos Cristais, perpetrada pelos nazistas em 1938, e as ações decorrentes de decisão judicial no inquérito do STF, que investiga fake news no Brasil. A Noite dos Cristais, realizada por forças paramilitares nazistas e seus simpatizantes, resultou na morte de centenas de judeus inocentes, na destruição de mais de 250 sinagogas, na depredação de milhares de estabelecimentos comerciais judaicos e no encarceramento e deportação a campos de concentração. As ações do inquérito, por sua vez, se dão dentro do ordenamento jurídico, assegurado o direito de defesa, ao qual as vítimas do nazismo não tinham acesso”, afirma a Confederação Israelita.
Já o Museu do Holocausto de Curitiba escreveu um longo texto sobre a natureza do Holocausto, em que chamou a comparação de “inoportuna” e afirmou que há uma “total impossibilidade de dialogar com figuras e entidades que diariamente se recusam a compreender a essência do nazismo e insistem em utilizá-lo como recurso retórico para atacar seu espectro político ‘rival'”.
Um dos expoentes da ala ideológica do bolsonarismo, Weintraub tem ligação muito próxima com os filhos do presidente Jair Bolsonaro, especialmente o deputado Eduardo (PSL-SP) e o vereador Carlos (Republicanos). Na operação da quarta-feira, nomes próximos do bolsonarismo foram alvo, como o blogueiro Allan dos Santos.
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