Quinta-feira, 10 de setembro de 2026
Por Gelson Santana | 10 de setembro de 2026
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.
Os fatos inacreditáveis que vieram à tona nos últimos dias, envolvendo membros da mais alta Corte do país, nos deixam, no mínimo, indignados. Essa mesma indignação foi a que senti em 1988, quando milhões de cidadãos e cidadãs foram às ruas do Brasil — inclusive aqui em Porto Alegre — mobilizados e lutando pela promulgação da Constituição.
Naquele tempo, o movimento sindical realizou grandes mobilizações pela jornada de 44 horas semanais, especialmente na nossa Esquina Democrática, para pressionar os deputados constituintes gaúchos a votar a favor da redução. Foi uma batalha vitoriosa, mas hoje sabemos que a luta não terminou. Não podemos ficar reféns de interesses minoritários que querem empurrar a decisão do fim da escala 6 x 1 para depois das eleições. Precisamos cobrar os senadores para que decidam antes.
Só nossa mobilização e união podem fazer acontecer. Foi assim, também, quando, há quatro décadas, vivemos o momento das primeiras eleições democráticas para prefeitos nas capitais. Dias antes das eleições municipais, diversos representantes sindicais realizaram uma caminhada silenciosa pela Rua da Praia.
Não houve barulho nem som, porque não foi permitido no último dia de campanha. No ano seguinte, após 29 anos sem eleições diretas para presidente, os movimentos populares transformaram as ruas centrais de Porto Alegre em palcos de manifestações políticas gigantescas. A Esquina Democrática e o Largo Glênio Peres eram os locais onde participávamos de comícios gigantescos, com forte engajamento dos movimentos populares.
Todos esses momentos importantes de mobilização social e política tiveram uma ligação profunda com a música de Cazuza, que ganhou força nas camadas populares justamente por ter sido tema de abertura de novela. Trinta e sete anos depois, não tenho dúvida de que sua letra ainda serve como expressão da nossa indignação — ao pé da letra.
Ao ouvir novamente a música, ao analisar o andamento da votação do fim da escala atual de trabalho e ao tomar conhecimento dos novos fatos envolvendo integrantes do Supremo, que preocupam muito todos aqueles comprometidos com direitos sociais, ética e respeito às instituições democráticas, considero fundamental manifestar nossa indignação.
Em relação ao primeiro, o fim da escala 6 x 1 é o que nós, trabalhadores, vivenciamos há décadas: um embate com uma parcela da elite empresarial e social que ainda não entendeu — ou não quer entender — que estamos todos do mesmo lado: o lado do desenvolvimento com inclusão e da evolução para todos.
Se queremos que nosso país evolua, precisamos seguir outros exemplos. Na Alemanha, a média semanal real gira em torno de 33,9 horas. A cultura alemã valoriza a eficiência, não a quantidade de horas.
A França se consolidou, há décadas, com uma semana de 35 horas, criando um modelo que prioriza o equilíbrio entre a vida pessoal e profissional. Na Bélgica, foi legalizado o direito dos trabalhadores de compactar a jornada em quatro dias. Em nenhum desses casos houve prejuízos econômicos. Estamos falando, portanto, não de economia, mas de dignidade, de saúde, de qualidade de vida.
No segundo ponto, os registros de conversas entre representantes da mais alta corte jurídica do Brasil — mostrando um duelo entre membros que buscam interesses próprios, e não o cumprimento da Constituição —, juntamente com as negociações entre políticos de alto nível e um banqueiro réu por uma das maiores fraudes do sistema financeiro, são absolutamente alarmantes. Esse cenário me leva diretamente à frase de Cazuza na música “Brasil”: “Quero ver quem paga pra gente ficar assim”.
Nós, trabalhadores e trabalhadoras, que construímos o novo morar e o novo trabalhar de toda a sociedade, sabemos o quanto custa construir algo sobre bases frágeis. Sabemos o peso de uma estrutura que se sustenta tem desigualdades, em privilégios, em silêncios. Essa realidade precisa mudar. Agora.
*Gelson Santana
Presidente do STICC e Secretário Nacional dos Trabalhadores nas Indústrias da Construção Civil, Construção Pesada e em Montagem Industrial UGT
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
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