Sábado, 20 de junho de 2026
Por Redação O Sul | 20 de março de 2023
O preconceito enfrentado por alunos com mais de 40 anos no ensino superior ficou evidente após o caso da universitária hostilizada por colegas em Bauru (SP) na última semana. Mas os obstáculos não param por aí.
Há 900 mil adultos e idosos, a partir dessa mesma idade, que estão matriculados em escolas no Brasil, sendo alfabetizados e aprendendo conceitos básicos de matemática e ciências.
Eles não chegaram à faculdade (ainda), mas já encontram severas barreiras para retomar os estudos: encaram a falta de autonomia por não saberem ler e escrever, são alvo de intolerância por tentarem estudar “tardiamente” e desdobram-se para conciliar o emprego com as aulas noturnas.
Veja estes números:
– 11,1% dos brasileiros acima de 40 anos são analfabetos (segundo os dados mais recentes, de 2019, da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua – Pnad),
– cerca de 900 mil estão na escola (Censo Escolar de 2022);
– e outros 600 mil são alunos no ensino superior (Censo de Educação Superior de 2021).
O que aconteceu com as crianças e jovens, nas últimas décadas, para abandonarem o colégio ou nem chegarem a ser matriculados? O que motiva alguém com mais de 40 anos a enfrentar as dificuldades e entrar na EJA? E que desafios são esses?
– Por que adultos chegam aos 40 anos sem ter concluído a escola? Flávia da Silva, especialista em língua portuguesa e professora da rede pública de Goiás (inclusive da EJA), resume os motivos principais de abandono da escola: histórias de extrema pobreza; violência doméstica; gravidez e casamento; baixa autoestima gerada por problemas de aprendizagem não trabalhados ou identificados; bullying na escola; necessidade de trabalhar em período integral; maridos que proibiam as esposas de irem ao colégio; reprovações.
E há histórias em que os fatores se misturam.
Nascido em Pedrinhas (SE), o porteiro José Carlos Conceição, de 61 anos, não conhece as próprias origens – foi abandonado quando era criança e não se lembra de sua infância. Viveu na rua até os 16 anos, quando, ainda analfabeto, foi acolhido por um casal em Salvador.
“Comecei a lavar carro, a lavar panela em restaurante, mas sempre tive o sonho de estudar. Porque conhecimento supera qualquer riqueza de ordem material, né? Essas pessoas me disseram que o céu era o limite. Eu acreditei”, diz.
Foi com esse estímulo (e com a animação de ter conseguido ler gibis sozinho) que, durante a pandemia, José Carlos entrou na EJA, na modalidade à distância. Terminou os estudos, prestou o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2021 e foi aprovado em psicologia.
“Trabalho de madrugada, saio da portaria e vou direto para a aula de manhã. Os moradores do condomínio mudaram o jeito de me olhar quando souberam que faço faculdade”, conta.
“Mas já ouvi muitas frases preconceituosas na vida. ‘Numa idade dessa, estudando? Para quê?’. Eu respondo: ‘porque eu quero; é proibido?'”
Não, não é proibido. É direito constitucional.
– Quais os principais obstáculos? Preconceito consigo mesmo ou vindo da família e dos amigos. “A primeira barreira a ser rompida pelos alunos da EJA é com eles mesmos. Existe uma autocensura que faz com que eles se questionem: ‘será que ainda adianta estudar nessa idade?’”, diz Sonia Couto, coordenadora no Instituto Paulo Freire.
Esse tipo de dúvida é alimentado por familiares e amigos. “Há mulheres que são privadas de seus direitos por maridos que não admitem chegar em casa e não encontrar a esposa servindo o jantar, ‘só’ porque ela está na escola à noite”, afirma. “E existem casos de filhos que ficam envergonhados de ter pais na EJA.”
Às vezes, o preconceito aparece de uma maneira mais velada, disfarçada de brincadeira.
“Isso sempre vai acompanhar quem não está no padrão. Tenho uma aluna [na EJA] que tem mais de 70 anos. As mais novas perguntam para ela o que ela espera do futuro nessa idade. Percebe-se um tom jocoso [de “zombaria”] nas falas”, conta Flávia.
As aulas da EJA (Educação Para Jovens e Adultos, modalidade de aulas voltadas a quem não concluiu os estudos na idade regular) costumam acontecer à noite. Em São Paulo (SP), por exemplo, são ministradas das 19h às 23h, em escolas municipais. Não é fácil, para um trabalhador, ter disposição e encarar 4 horas de conteúdos, após um expediente exaustivo.
“Eles chegam cansados, com fome. E a pandemia provocou um estrago: alguns idosos que tiveram Covid-19 enfrentam ainda sequelas da doença, com problemas de memória e concentração. É preciso considerar tudo isso na hora de planejar uma aula”, diz Sonia Couto. As informações são do portal de notícias G1.
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