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Economia Brasileiro já antecipa até 40% do salário para pagar dívidas

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Pesquisa mostrou que a inadimplência avançou a 29,5%. (Foto: EBC)

A combinação de orçamento apertado, multiplicação de boletos e inflação de dois dígitos levou o brasileiro a recorrer ao salário do mês seguinte para pagar a dívida de hoje. Ganha espaço entre as empresas a procura pelo serviço de antecipação de parte do salário para fazer frente a despesas emergenciais, gastos do mês, como comida ou escola dos filhos, ou para quitar dívidas com custo maior, como as de bancos e cartões de crédito.

Em geral, o serviço passa a ser oferecido a partir de pedidos dos próprios funcionários, que buscam uma forma de conseguir recursos para situações emergenciais de forma mais barata. Para muitos, a modalidade virou uma saída para chegar ao fim do mês.

Na Creditas, que oferece o serviço desde o final de 2020, ocorreu aumento de mais de 200% nas solicitações de antecipação salarial no primeiro semestre de 2022, em relação ao mesmo período do ano anterior.

O levantamento foi feito levando em conta o universo de 800 mil funcionários de empresas que têm acesso ao serviço oferecido pela Creditas Benefícios. Cerca de 96% das pessoas que anteciparam seus salários no período acessaram um tíquete médio de R$ 2 mil.

Pela Creditas, o funcionário pode antecipar até 40% do salário. As duas primeiras solicitações são gratuitas e a partir da terceira, há uma taxa de R$ 5. Não há cobrança de juros.

Segundo pesquisa da Creditas realizada a partir de seu próprio serviço, em janeiro de 2022, 63% dos trabalhadores com carteira assinada estão com ao menos 50% da renda comprometida com dívidas.

Cerca de 1.750 empresas dos mais variados setores já aderiram ao serviço. A Paketá costuma antecipar de 30% a 40% do salário, com tíquete médio de R$ 500. A taxa por saque varia em cada acordo firmado, podendo ser de R$ 2 a R$ 5. Não há cobrança de juros.

Na opção pelo consignado, por exemplo, a taxa de juros varia entre 1,70% a 3,90% ao mês, a depender da rotatividade dos funcionários.

Na fintech Leve, a antecipação passou a ser ofertada em janeiro, com o objetivo de retirar os funcionários de créditos mais caros. A empresa cobra taxa única de R$ 8,99 por saque, sem juros. No consignado, opção que a fintech também oferta, os juros variam de 1,29% a 2,89% ao mês.

Cerca de 10 mil pessoas já têm acesso ao produto, com uso de duas a três antecipações por mês. A procura tem sido feita, principalmente, por empresas de tecnologia. O CEO da Leve, Gustavo Raposo, destacou que o serviço costuma ser usado para comprar comida, ajudar a pagar o colégio e pagar conta com desconto.

Produtividade

Pelo lado das empresas, a antecipação é uma forma de ajudar na saúde financeira dos funcionários e, com isso, melhorar sua produtividade.

Foi o caso da empresa de pagamentos Pague Veloz, que passou a contar com a antecipação no final de 2020, depois de identificar a demanda por parte dos trabalhadores.

— Pelos canais que temos aberto, percebemos muitas solicitações de empréstimo, de antecipação do salário, se teria alguma forma de adiantamento ou de vale. Começaram a surgir muitas questões financeiras e, por isso, pensamos nisso para melhorar a saúde financeira dos colaboradores — disse a coordenadora de RH, Karine Moraes.

Até o momento, 50% dos 383 funcionários já usaram. A empresa aderiu a um programa de educação financeira, com 70% de adesão.

Para profissionais de educação financeira, o serviço de antecipação pode ser benéfico para quem tem maior planejamento financeiro e quer sair ou evitar dívidas mais caras. No entanto, ponderam que é necessário cuidado para a prática não se tornar um vício que comprometa a renda no mês seguinte.

— O cuidado é que isso pode criar um hábito. Muitas vezes a antecipação está tapando o sol com a peneira. Fazer uma antecipação pequena só para quitar uma dívida e não pagar juros pode ser interessante. Mas a pessoa que recorre a essa prática tem que ter a consciência de que não vai receber o salário integral — disse o consultor Vinicius de Marchi, da W1 Consultoria Financeira.

Crédito consignado

Com altas taxas de juros praticadas pelo mercado em diversas modalidades de crédito, Adenias Gonçalves Filho, sócio da consultoria Bem-Financeiro, diz que adiantar o salário pode ser mais vantajoso do que pegar um empréstimo consignado. Com controle e estratégia, até vale a pena solicitar o adiantamento de alguma quantia para viabilizar uma renda extra.

— Se a pessoa pega R$ 1.000 e paga só R$ 5, é uma taxa baratíssima. É possível, então, usar essa antecipação de forma inteligente, comprando produtos que possam ser comercializados com velocidade e alta lucratividade depois — analisa.

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