Sábado, 08 de Maio de 2021

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Brasil Brasileiro transforma o hábito financeiro e quer poupar após trauma da pandemia

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Queda na renda por causa da crise faz 69% dos brasileiros afirmarem ter intenção de economizar mais no futuro. (Foto: Reprodução)

A coordenadora de marketing Isleiny Barreto, de 32 anos, faz parte de um grupo de brasileiros que estão reaprendendo a administrar as finanças em meio à pandemia. Ela foi demitida no fim de março do ano passado, assim que as medidas de distanciamento social foram impostas. Sem fonte de renda, teve de voltar a viver com a mãe.

Isleiny conseguiu um novo emprego em setembro e pôde morar sozinha novamente, mas decidiu se afastar dos hábitos financeiros que tinha antes do coronavírus. Quitou todas as dívidas e, em uma planilha, estudou onde estavam os gastos supérfluos.

Compras de roupas e acessórios em shoppings, que eram frequentes, foram eliminadas. Ela passou também a pesquisar mais os preços quando precisa de algo e fez o que todo especialista em finanças pessoais sugere: não ir ao supermercado sem uma lista do que realmente precisa, para evitar levar para casa o que não é necessário.

Isleiny Barreto venceu o desemprego na pandemia, mas decidiu que não vai retomar antigos hábitos de compras e agora economiza 40% do salário. “A única coisa que ainda não estou conseguindo economizar é com alimentação”, explica a coordenadora de Marketing, que tem guardado até 40% de seu salário. “Não tenho muito tempo para cozinhar. Então, acabo pedindo.”

Isleiny é exemplo de um fenômeno que parece se espalhar pelo País. A pandemia e as consequentes medidas de distanciamento social deixaram milhões de pessoas sem fonte de renda e dependentes do socorro financeiro do governo. O trauma dessa situação tem potencial para mudar a relação com o dinheiro dos brasileiros, que historicamente não são acostumados a poupar. Pesquisa da consultoria Oliver Wyman aponta que 69% dos cerca de 4 mil entrevistados no País querem economizar mais depois que a crise sanitária passar.

A mudança no comportamento, porém, reflete por enquanto muito mais a intenção que a realidade. De acordo com o levantamento, apesar de a maior parte da população pretender economizar mais no pós-pandemia, as pessoas ainda não têm dinheiro para isso, dado que perderam renda nos últimos meses.

A pesquisa mostra que a renda de 46% dos entrevistados diminuiu neste período. O número é próximo ao do total de pessoas que reduziram suas economias: 47%. Ainda segundo a Oliver Wyman, apenas 16% dos brasileiros conseguiram, como Isleiny, aumentar o volume economizado no último ano.

Para a coordenadora do Centro de Estudos em Finanças da Escola de Administração da FGV, Claudia Yoshinaga, ainda que a pandemia tenha reduzido a renda dos brasileiros – o que dificulta a possibilidade de se economizar e investir –, ela tem potencial para transformar o hábito das pessoas. Isso porque a crise da covid chegou de uma maneira muito inesperada e dura.

“Se é que a gente pode dizer que houve um reflexo positivo dessa pandemia em relação às finanças, talvez tenha sido o alerta criado com relação à necessidade de se ter uma reserva de emergência para sobreviver a períodos inesperados”, diz Claudia.

Diferentemente de outras crises – como a de 2008/2009, que afetou principalmente os mercados financeiro e imobiliário –, a atual atingiu todo mundo. Isso também aumenta a possibilidade de as pessoas mudarem seu comportamento. “A pandemia afetou a economia real. As pessoas ficaram trancadas em casa e perderam seus empregos, não foi apenas um grupo que trabalhava no mercado financeiro que perdeu o emprego.”

Planejadora financeira e integrante da comissão de certificação da Associação Brasileira de Planejadores Financeiros (Planejar), Eliane Tanabe também afirma que a proporção da crise da covid trouxe um maior nível de conscientização. “Quando há uma crise tão forte, é natural que as pessoas comecem a repensar e a tomar atitudes. Essa crise deixou claro que a renda pode cessar ou diminuir, e não podemos prever por quanto tempo.”

Eliane conta que já tem percebido essa mudança nas conversas com os clientes. Há poucos dias, um deles, que está se organizando para comprar um imóvel, levantou a possibilidade de que a casa seja mais simples – e barata – para não precisar mexer em sua reserva de emergência.

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