Sexta-feira, 29 de maio de 2026
Por Redação O Sul | 11 de abril de 2020
A infecção viral causada pelo novo coronavírus já afetou mais de 260 pessoas e causou pelo menos 19 mortes na Bolívia. Cerca de 26 mil brasileiros residem no país, a maioria estudantes. Divididos entre a restrição de sair às ruas e o precário sistema de saúde boliviano, alguns decidiram voltar provisoriamente ao Brasil, enquanto outros preferiram ficar. A reportagem da RFI conversou com o advogado Henrique Souza e com a cabeleireira Jane Benedita da Silva que tomaram decisões opostas.
Após o aparecimento do primeiro caso da Covid-19, no final de março, o governo provisório de Jeanine Áñez impôs o estado de emergência nacional. Policiais e militares, incluindo da Marinha, participam das operações de controle para garantir que os cidadãos saiam às ruas apenas uma vez por semana e no horário autorizado. A cabeleireira Jane conta como funcionam as regras de distanciamento social na Bolívia: “Aqui a gente tem horário e dia para sair. Você tem que ver pelo número final da identidade. A minha termina em zero e eu tenho o direito de sair toda sexta-feira, das 8h ao meio-dia.”.
Quem infringe a determinação do governo pode ir preso, além de ter que pagar uma multa. Nesta semana, o prefeito de Patacamaya, no departamento de La Paz, foi preso por ter autorizado uma festa religiosa na qual participaram cerca de 600 pessoas. Os testes realizados posteriormente em alguns participantes deram positivo para a covid-19.
Outra proibição é a saída aos sábados e domingos. No entanto, por causa do feriado da Sexta-feira Santa, os cidadãos que não puderam fazer suas compras semanais ontem receberam autorização para sair neste sábado (11).
Pelo menos em Santa Cruz de la Sierra, onde mora a brasileira Jane, o uso de carros particulares está proibido. Em caso de infração, o veículo é apreendido e será devolvido apenas no fim da quarentena. Sem transporte público e sem poder usar o carro, quem precisa ir às compras, de acordo com Jane, recorre à criatividade e usa até mesmo malas de viagem para transportar as compras.
Santa Cruz de la Sierra é o centro econômico da Bolívia e onde foram registrados a maioria dos casos da covid-19, cerca de 130 até o momento. A agricultura é a principal atividade nesse departamento que faz fronteira com o Brasil. A produção de cana-de-açúcar tem possibilitado que fábricas locais contribuam no combate à epidemia de coronavírus, conforme relata a brasileira Jane: “Aqui tem muita plantação de cana. Eles [os empresários] estão fabricando muito álcool e álcool gel e estão vendendo com um preço bem econômico.” Para reduzir o risco de propagação do coronavírus, o governo determinou o uso obrigatório de máscaras. As feiras livres, chamadas de “mercados”, continuam autorizadas para a compra de alimentos frescos.
Mas nas imediações dos supermercados e das feiras foram instaladas cabines onde a pessoa, ao passar, é borrifada com líquidos higienizantes. Durante muitos anos, o fantasma da pobreza assolou a população de cerca de 11 milhões de bolivianos. Para minimizar as consequências econômicas da quarentena, o governo provisório de Áñez autorizou a entrega de um bônus para famílias necessitadas e idosos. Em breve, a presidente anunciará benefícios aos microempresários.
Embora grande parte dos brasileiros que moram na Bolívia sejam estudantes de medicina, a saúde pública no país ainda deixa a desejar. Além disso, a Bolívia passa por uma delicada situação política desde a saída do ex-presidente Evo Morales (2006-2019) e as conturbadas eleições de outubro passado.
Jane descreve a Bolívia como “um país complicado”, depois da saída de Morales e da ascensão de Áñez. A brasileira soube pela televisão que as autoridades estão preparando um hospital para acolher até cem pacientes da covid-19. As novas eleições estavam programadas para 3 de maio, mas por causa da pandemia elas foram adiadas. Recentemente, o Tribunal Superior Eleitoral apresentou um projeto para que a votação seja realizada entre junho e setembro deste ano.
Os comentários estão desativados.