Segunda-feira, 28 de setembro de 2026
Por Redação O Sul | 27 de setembro de 2026
“Sinto falta de homens como Pedro Simon, Darcy Ribeiro e Leonel Brizola”, diz Osires Rezende, aposentado e escritor, de 73 anos. “Não queria votar em nenhuma dessas pessoas”, afirma Tiago Coutinho, com 25 anos recém completados em agosto, que trabalha numa empresa com familiares.
Quase cinco décadas separam esses dois eleitores, que têm argumentos diferentes para uma decisão comum na disputa de outubro: estão inclinados a não votar em nenhum candidato à Presidência da República.
Para Osires, o obstáculo é menor: o voto é facultativo para pessoas com mais de 70 anos. Já Tiago ainda aguarda para tomar uma decisão final até o próximo domingo, 4, dia do primeiro turno.
Moradores de Brasília, os dois representam uma porção do eleitorado que as campanhas de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) trabalham para conquistar. Os votos dos jovens entre 16 e 24 anos (5,5 milhões, ou 12,5% do eleitorado) e dos brasileiros com mais de 70 anos (17 milhões, ou 15,75% do eleitorado) são vistos pelas duas candidaturas como potenciais alvos decisivos para vencer a disputa.
A apatia eleitoral de Osires vem desde 2022, quando ainda era obrigado a votar. Ele, que fez campanha para o PT no passado e foi filiado ao PDT, diz estar decepcionado com a política. Esse sentimento o levou a votar em Jair Bolsonaro (PL), em 2018. Mas logo se arrependeu.
O motivo? A “Lava Toga” – movimento iniciado no Senado para investigar supostos abusos de autoridade de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) –, barrada por iniciativa de aliados do próprio governo Bolsonaro. “Ali eu vi que eles não tinham compromisso com nada”, afirma.
Flávio Bolsonaro? Só para barrar Lula
A família de Tiago, cinco décadas mais jovem que Osires, também tenta convencê-lo a votar em alguém – neste caso, no senador Flávio Bolsonaro. Ele diz ser de direita e não vê nenhum político se encaixar no seu perfil de candidato ideal.
“Eu gosto do Jair Bolsonaro. O Bolsonaro eu acho honesto, mas o Flávio eu não acho. Honestidade para mim pesa muito”, diz Tiago. “Mas com certeza ele é menos pior que o Lula.”
Os parentes argumentam que votar em Flávio no primeiro turno seria uma forma de impedir uma possível vitória de Lula – algo que ele cogita só no segundo turno.
Título de eleitor para votar no PT
O argumento contrário também motiva eleitores jovens a votar no PT. “Eu voto em Lula por discordar dos ideais do Flávio e do pai dele. E Lula também fez políticas públicas para os mais pobres e necessitados”, afirma Gabriela Rojas, estudante de 16 anos, de Brasília, que vai votar pela primeira vez.
Gabriela se diz politicamente influenciada pelos pais, advogados ambientais que defendem pautas da esquerda. No início do ano, ela se juntou a sete amigas da mesma idade que decidiram tirar o título de eleitor. Jovens de 16 e 17 anos estão aptos, mas não são obrigados a votar – eles são 1,6 milhão de brasileiros.
A estudante observa uma onda conservadora crescendo entre pessoas da sua faixa etária. “Vários meninos estão tirando título de eleitor para voltar como era antes, quase como um Make America Great Again”, constata Gabriela, numa referência ao slogan do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Jovem bolsonarista contra a esquerda
Felipe Guerra, de 23 anos, também não considera faltar às urnas. Depois de apertar 22 na eleição passada, Felipe chega ainda mais convicto à disputa deste ano: antes um mero eleitor, hoje ele milita no PL Jovem, setorial de Juventude da legenda bolsonarista, e vem fazendo campanha por Flávio no Distrito Federal.
Estudante de Gestão Pública no Instituto Federal de Brasília, Felipe diz não ter a liberdade de manifestação que gostaria com seus pares da faculdade – majoritariamente de esquerda, ainda que de forma velada, segundo ele – e conta que até já rompeu amizades por seu posicionamento político.
Pesquisas mostram que Lula vai melhor nos eleitorados dos extremos. No levantamento do Datafolha de 17 de setembro, o petista aparece com 39% das intenções de voto no primeiro turno, na faixa de 16 a 24 anos, contra 29% de Flávio. Duas outras pesquisas apontam empate técnico: 31% a 31% na Quaest de 21 de setembro (que abrange uma faixa de 16 a 34 anos); e 30% a 31% na Atlas de 23 de setembro, respectivamente.
Já no eleitorado idoso, a vantagem do petista é maior. No Datafolha, Lula marca 43% e Flávio, 33%. A Quaest indica uma diferença similar: 42% contra 32%. A Atlas oferece um cenário ainda mais favorável a Lula: 62,5%, enquanto Flávio tem 31,5%.
As pesquisas justificam o esforço da campanha do PT para tirar os idosos de casa no dia da votação. O Datafolha mostra que, somados, os indecisos e os votos em branco e nulos representam 11% do público que tem mais de 60 anos.
“As pesquisas têm mostrado que Lula vai muito bem na faixa dos acima de 60 anos. Obviamente que essa faixa precisa de muita motivação para votar”, analisa Marco Antônio Carvalho Teixeira, cientista político da Fundação Getúlio Vargas (FGV). ( Com informações do portal Estadão)
Verificação de Email - você receberá um email de confirmação após enviar o seu primeiro comentário, mas ele só será publicado depois que você clicar no link de verificação enviado para a sua conta de e-mail para confirma-lo. Os próximos comentários serão publicados automaticamente por 30 dias!