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Alexandre Teixeira G. de Castilhos Rodrigues Carnaval do Rio: entre o tambor e o palanque

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Moacir da Silva Pinto, o Mestre Ciça, é daqueles personagens que parecem ter nascido ao som de um tamborim. (Foto: Reprodução)

Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.

O gaúcho é conhecido pela cultura firme, pelas tradições que atravessam gerações e pelo apego às suas raízes. O Rio Grande do Sul se apresenta ao mundo com o chimarrão, o cavalo, o churrasco e a música que ecoa nos galpões. Mas quando o Brasil atravessa fronteiras e se projeta no imaginário internacional, há uma batida que imediatamente o identifica: o samba.

O mundo reconhece o Brasil pelo ritmo que nasceu nos morros e quintais do Rio de Janeiro e que, como um coração coletivo, pulsa nas comunidades e nos bairros da cidade. O samba é mais que música. É memória, identidade e expressão popular. É uma linguagem que transforma dificuldades em poesia e transforma o cotidiano em festa.

Poucas manifestações culturais no planeta conseguem reunir tanta arte, disciplina e emoção quanto o desfile das escolas de samba. Durante um ano inteiro, milhares de pessoas trabalham para apresentar ao público alguns minutos de beleza na avenida. Costureiras, compositores, ritmistas, escultores, carnavalescos e voluntários dedicam tempo e talento para que, naquele breve desfile, o mundo veja um espetáculo que mistura arte, comunidade e paixão. Neste último carnaval, um desses momentos de rara beleza teve nome e sobrenome: Mestre Ciça.

Moacir da Silva Pinto, o Mestre Ciça, é daqueles personagens que parecem ter nascido ao som de um tamborim. Desde jovem dedicou sua vida ao samba, não como quem busca fama, mas como quem atende a um chamado interior. Nos barracões e nas quadras das escolas de samba construiu sua trajetória com talento, disciplina e humildade.

No universo das escolas de samba, o mestre de bateria é o guardião do ritmo. É ele quem conduz centenas de ritmistas, garantindo que a escola avance na avenida com cadência e emoção. E Ciça fez isso durante décadas com uma combinação rara de técnica e respeito.

Talvez por isso a homenagem feita pela Unidos do Viradouro tenha sido tão significativa. Durante o desfile, um carro alegórico reuniu mestres e sambistas de diversas escolas para reverenciar sua história. Não era apenas uma homenagem artística. Era o reconhecimento de uma trajetória construída com dedicação e caráter.

No ambiente competitivo das escolas de samba — onde rivalidades fazem parte da tradição — ver representantes de diferentes agremiações celebrando um mesmo mestre revela algo especial. Aquela cena simbolizou uma unanimidade construída pela arte e pela convivência.

Ciça venceu pela dedicação ao samba e pela humildade com que sempre conduziu sua caminhada.

Sua vitória, ao lado do desfile vibrante da Viradouro, lembrou ao Brasil aquilo que o carnaval tem de mais bonito: a capacidade de reunir comunidades inteiras em torno da cultura.

Mas o carnaval também trouxe um contraste incômodo.

Se de um lado a avenida celebrava um artista respeitado por todos, de outro surgiu um episódio que transformou a arte em palanque. Uma escola decidiu utilizar seu desfile — financiado com recursos públicos — para apresentar narrativa claramente ideologizada, confundindo manifestação cultural com propaganda política.

Quando isso acontece, o tambor perde espaço para o discurso.

E o que poderia ter sido apenas um debate cultural acabou transformado em mais um capítulo da polarização brasileira. Após o desfile, vieram as reações: críticas de um lado, respostas ideológicas de outro. A cultura foi puxada para o centro de uma disputa que pouco tem a ver com o espírito do carnaval.

O samba nasceu para unir.

Quando financiada com recursos públicos, a arte deve representar a pluralidade da sociedade e não servir como instrumento de militância política — seja de esquerda ou de direita.

O dinheiro público pertence a todos e deve promover cultura, identidade e integração social.

Talvez por isso a imagem mais simbólica deste carnaval tenha sido justamente aquela do carro alegórico que reuniu mestres de diferentes escolas para homenagear Ciça. Ali estava a essência do samba: respeito entre adversários, reconhecimento do talento e celebração da arte.

Essa cena resume uma verdade simples.

Enquanto alguns tentavam transformar a avenida em tribuna ideológica, a bateria lembrava que o Brasil também sabe tocar em outro ritmo — o da convivência.

Falo também com certa nostalgia pessoal. Carioca de nascimento e mangueirense de coração, aprendi desde cedo a admirar todas as escolas, torcendo acima de tudo pelo espetáculo do samba. Porque quando a arte vence, quem ganha é o Brasil.

E o Brasil precisa disso.

Num mundo cada vez mais barulhento, talvez devêssemos ouvir mais os tambores e menos os palanques.

Porque aquilo que verdadeiramente representa o país diante do mundo não são as disputas ideológicas.

É o som da bateria ecoando na avenida.

E nesse ritmo, felizmente, ainda somos capazes de marchar juntos.

* Alexandre Teixeira G. de Castilhos Rodrigues, advogado e escritor (@castilhosadv) – castilhosadv@gmail.com 

Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.

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