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Colunistas Casamento: nem toda traição tem testemunhas

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Perdoar não significa aceitar novas agressões nem renunciar à própria dignidade

Foto: Divulgação
Perdoar não significa aceitar novas agressões nem renunciar à própria dignidade. (Foto: Divulgação)

Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.

Quando se fala em infidelidade, quase todo mundo imagina o mesmo roteiro: mensagens escondidas, encontros secretos, desculpas mal contadas e o clássico perfume estranho na camisa. Mas, após duas décadas atendendo casais, posso afirmar: existem traições que nunca passaram pela cama de outra pessoa.

Há quem traia com o silêncio. Há quem traia com a indiferença, e essa pode doer mais do que você imagina. Há quem traia humilhando o parceiro na frente dos filhos, ironizando suas fragilidades, colecionando críticas, distribuindo desprezo em pequenas doses diárias.

Poucas coisas machucam tanto quanto perceber que a pessoa que prometeu ser seu lugar seguro se transformou no lugar onde você mais precisa se defender.

O curioso é que ninguém acorda numa terça-feira e pensa: “Hoje vou destruir a confiança do meu casamento”. As rachaduras começam pequenas. Um comentário ácido aqui, uma mentira “inofensiva” ali, um grito justificado pelo estresse, um pedido de desculpas automático que já vem quase com prazo de validade.

É como aquele copo que cai da mesa. A gente escuta o barulho apenas quando quebra. Mas a queda começou alguns segundos antes. Na clínica, costumo dizer que a infidelidade não começa quando alguém cruza a porta de um motel, mas quando atravessa os limites do respeito.

É por isso que o perdão é uma das experiências mais complexas da vida adulta. Perdoar não é esquecer, o cérebro humano não possui um botão de “apagar memória”, embora muita gente procure esse modelo nas lojas. Também não significa fingir que nada aconteceu ou minimizar a dor.

Superar uma quebra de confiança exige um doloroso processo de reconstrução psíquica. Existe luto pelo relacionamento que existia, raiva pelo que foi perdido, culpa muitas vezes injusta e uma pergunta que ecoa silenciosamente: “Será que um dia voltarei a confiar?”. Primeiro em si. Depois, talvez, no outro.

Freud explicava que não buscamos o sofrimento de forma consciente. O inconsciente tenta revisitar antigas dores na esperança infantil de finalmente dar a elas um final diferente. É por isso que tantas pessoas repetem dinâmicas em que se anulam, toleram desrespeitos e acreditam que salvarão quem nunca pediu socorro. Não é fraqueza; são histórias antigas tentando encontrar um desfecho novo.

Por outro lado, a Terapia Cognitivo-Comportamental nos mostra que não somos prisioneiros dessas feridas. Quando identificamos os pensamentos que sustentam esses ciclos, como “preciso aceitar tudo para ser amado” ou “ele vai mudar porque prometeu”, podemos questioná-los. O passado explica muita coisa, mas não precisa ditar o futuro.

Existe uma verdade que às vezes incomoda ouvir: nem todo perdão termina em reconciliação. Perdoar é uma decisão individual. Reconstruir o casamento é uma decisão de duas pessoas.

E essa reconstrução exige muito mais do que um pedido de desculpas emocionado. Ela demanda arrependimento verdadeiro, transparência e mudança consistente de comportamento.

A confiança não nasce de promessas, mas da repetição diária de atitudes coerentes. Como cristã, já ouvi inúmeras vezes que o casal deve perdoar independentemente do que aconteceu. Concordo que o perdão liberta quem perdoa. Mas discordo quando essa mensagem é usada para manter alguém preso em uma relação abusiva.

Não acredito em um Deus que espere que uma mulher suporte violência íntima, agressões físicas ou humilhações constantes em nome da preservação do casamento. Tampouco acredito que um homem deva silenciar diante da violência emocional.

O amor jamais foi licença para destruir o outro. Perdoar não significa aceitar novas agressões nem renunciar à própria dignidade. Muitas vezes, é justamente o ato de recuperar o amor-próprio.

É sempre mais fácil conceder uma nova oportunidade quando existe arrependimento verdadeiro. Quando quem feriu deixa de defender seus erros e começa, finalmente, a proteger quem machucou.

Depois de tantos anos escutando histórias de amor, aprendi uma verdade simples: casamentos raramente terminam por causa de um único grande erro. Na maioria das vezes, eles adoecem pela repetição de pequenas deslealdades que passam despercebidas. Um desrespeito hoje. Um desprezo amanhã. Um silêncio depois. Até que um dia o amor continua morando na casa, mas a segurança já foi embora.

Fidelidade nunca foi apenas dividir a mesma cama. É dividir o mesmo respeito. Quem ama protege o corpo, a honra, os sonhos e a paz do outro.

A maior traição, talvez não seja apenas desejar outro corpo, mas abandonar a promessa feita diante da vida: a fidelidade, a cumplicidade, a amizade, a parceria, na tristeza e na alegria, na saúde e na doença.

Esses são os “votos” que prometemos no casamento. E talvez seja justamente esse pacto que muitos casais acabam traindo todos os dias, sem perceber.

Por isso, antes de perguntar apenas se o outro foi fiel, talvez valha fazer a pergunta mais difícil: em que parte da nossa promessa eu também traí você?

Até a próxima consulta.

* Tatiane Scotta, psicóloga, sexóloga e palestrante

Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.

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