Sábado, 26 de Setembro de 2020

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Economia Com a ajuda do dólar alto, a retomada da economia pode surpreender, diz o economista-chefe do Bradesco

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Para Fernando Honorato, valorização do câmbio pode se traduzir em aumento de investimentos no País. (Foto: Divulgação)

Com o dólar valorizado em relação ao real, o Brasil se tornou barato aos olhos do estrangeiro, o que pode se traduzir em aumento do investimento e retomada surpreendente do crescimento no período pós-pandemia do coronavírus, se o País mantiver o compromisso fiscal e a agenda de reformas, avalia o economista-chefe do Bradesco, Fernando Honorato.

Honorato explica que, na ausência do remédio contra a covid-19, a expectativa do Bradesco é de recuperação gradual diante do receio das pessoas de retornarem à normalidade e do aumento do endividamento de famílias, empresas e governos durante a crise.

“Se a discussão (sobre contas públicas) for melhor do que o cenário base, o PIB pode surpreender. Pode começar já no segundo trimestre uma discussão mais forte sobre a reforma tributária e administrativa, sobre as privatizações. Barato o País já ficou pela depreciação do câmbio. Agora, para a percepção de ficar barato se transformar em uma oportunidade de investimento, depende de olhar para frente e ver que a perspectiva é boa”, explica.

O Bradesco alterou a perspectiva para o Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil depois do resultado do primeiro trimestre, de queda de 4,0% para recessão de 5,9%. Para 2021, a projeção foi mantida em alta de 3,5%. A seguir os principais pontos da entrevista.

Como o sr. avalia o resultado do PIB do 1º trimestre, de queda de 1,5%

A gente tem separado essa crise em três pilares: de saúde pública, de impactos econômicos e de respostas de políticas públicas, de estratégias de saída. Para pensar a atividade, quanto o PIB vai cair este ano quanto vai subir no ano que vem, ainda dependemos muito do primeiro pilar, ou seja, de saúde pública. É o que vai determinar a profundidade e extensão do segundo, que são os impactos econômicos. E até mesmo o terceiro, sobre quais vão ser as respostas de políticas públicas necessárias para mitigar os efeitos (da crise). Então, o que estamos olhando com lupa é ainda o primeiro pilar. Quando os casos do Brasil vão se estabilizar. Aqui, eu diria que há boas e más notícias: as boas notícias são que o Brasil conseguiu ter uma curva menos inclinada do que a maior parte dos países em que houve colapso do sistema de saúde. Isso ajudou bastante a proteger algumas vidas. A má notícia é que a nossa curva ainda não se estabilizou, ainda está crescendo. Os dados do primeiro trimestre e de abril e maio são muito semelhantes ao que temos visto no mundo todo. O dado do primeiro trimestre, em particular, a parte de investimento, que cresceu ainda, é um grande retrovisor. Então tem pouca informação contida naquele PIB que nos ajude a pensar para frente. No segundo trimestre, os indicadores que temos recebidos, tanto públicos quanto privados, apontam para uma queda do PIB que pode chegar a 10%. De novo, muito semelhante à expectativa de outros países: para os Estados Unidos é 10%, para a Europa também em torno de 10%. Me parece uma crise muito sincronizada. Não dá para evitar um impacto muito grande no segundo trimestre.

Considerando que, no Brasil, os casos não se estabilizaram ainda e o isolamento deve durar mais, é possível que nossos dados de atividade sejam piores do que os outros países depois?

É preciso fazer um exercício de engenharia reversa. O Brasil fechou antes do que devia? É praticamente impossível responder e, depois, do ponto de vista de vidas poupadas, ao que tudo indica, que bom que fechamos antes. Fechou antes do ponto de vista de total de casos, não cronológico, porque fechamos junto com Estados Unidos e Europa, mas o nosso número de casos ainda era baixo. Se tivesse aparecido um medicamento, o Brasil seria o país com melhor desempenho econômico, porque fechou antes, poupou vidas. A nossa curva, de fato, ainda não se estabilizou, pode ser que a gente demore mais que outros países. Isso vai implicar em alguns meses ou algumas semanas a mais do ponto de vista de resultado econômico. Pode ser diferente do resto do mundo a partir de junho.

Como o sr. avalia que será o processo de retomada?

A retomada, tanto global quanto do Brasil, depende de uma resposta que a gente não tem, que é a existência do remédio. Se tiver remédio, acho que a vida volta ao normal relativamente rápido. Na ausência de remédio, me parece razoavelmente claro que as pessoas não vão voltar à vida normalmente, então, acho que a retomada tende a ser gradual. O que temos visto é o exemplo da China, que voltou com a produção industrial relativamente rápido, rodando hoje entre 80% a 90%, o comércio está rodando de 50% a 60% do que era o pré-crise e o setor de serviços em 30% a 40%. Isso parece ser um padrão razoável de retomada na ausência de medicamento. As empresas vão ter que se adaptar, tomar alguns protocolos de saúde nas fábricas e nos escritórios, e isso tudo faz com que se tenha não só uma retomada mais gradual, mas custos mais importantes para empresas e a sociedade. Daí que vem nossa projeção: uma queda de 5,9% este ano com alta de 3,5% no ano que vem.

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