Sexta-feira, 19 de junho de 2026
Por Redação O Sul | 1 de fevereiro de 2024
Logo depois de Bangladesh conquistar sua independência do Paquistão, em 1971, numa guerra sangrenta que levou a vida de cerca de três milhões de pessoas, segundo dados oficiais, Henry Kissinger (1923-2023), então Conselheiro de Segurança Nacional dos Estados Unidos, referiu-se à nova nação como um “caso perdido”.
Um dos países mais pobres do mundo na época, com cerca de 80% da população vivendo na miséria, de acordo com o FMI (Fundo Monetário Internacional), Bangladesh parecia condenado ao subdesenvolvimento. Mas, meio século depois de sua criação, Bangladesh deixou para trás a imagem de país com pobreza endêmica, assolado pela fome, e se tornou um dos exemplos mais notáveis e inesperados de redução da miséria nas últimas décadas em todo o mundo.
Entre 1990 e 2022, Bangladesh tirou quase 30 milhões de pessoas da pobreza absoluta, conforme os dados do Banco Mundial. O número de pessoas vivendo na miséria, com menos de US$ 2,15 por dia, em valores de 2017 ajustados pelo custo de vida do país, caiu de 43,8 milhões para 16,4 milhões, num período em que a população cresceu 60%, para 171,2 milhões.
Em termos relativos, o contingente vivendo na pobreza extrema também teve uma queda significativa, de 45,8% para 9,6% da população, colocando Bangladesh à frente da Índia, onde a taxa, segundo o Banco Mundial, alcançava 11,9% em 2022 – a do Brasil, em 2021 (último dado disponível), era de 5,8% .
“Os esforços de Bangladesh para reduzir a pobreza dariam um livro”, disse Jim Yong Kim, ex-presidente do Banco Mundial (2012-2019), durante visita ao país quando ainda estava no comando da instituição. “Bangladesh é um exemplo de quão rápido um país pode emergir das profundezas da miséria.”
É certo que, de 1990 a 2022, a desigualdade teve um ligeiro aumento em Bangladesh. Além disso, quando se leva em conta uma renda um pouco maior, de US$ 3,65 por dia ajustada pelo poder de compra, a fatia da população enquadrada na categoria, considerada como de pobreza moderada, chega a 40%, índice que salta para 83% quando a renda considerada é de US$ 6,85 por dia. Isso revela os desafios que o país ainda tem pela frente, mas não ofusca o resultado extraordinário obtido no combate à miséria desde a sua independência.
Oitavo país mais populoso do mundo, localizado numa extensa planície e sujeito a ciclones violentos e cheias dos grandes rios que atravessam seu território e desaguam na Baía de Bengala, Bangladesh também desenvolveu um sistema de alertas e uma rede de abrigos que ajuda a proteger a população dos desastres naturais, melhorando a qualidade de vida na região.
Tudo isso se deve, principalmente, ao crescimento econômico do país nas últimas décadas. Com um crescimento em ritmo chinês, de 5,6% ao ano, em média, entre 1990 e 2022, Bangladesh foi um dos países que mais cresceram no período. No acumulado de 1990 a 2022, o PIB cresceu quase 15 vezes, de US$ 31,6 bilhões para US$ 460,2 bilhões, alçando Bangladesh ao posto de 41.ª maior economia global. Mesmo em tempos de turbulências generalizadas, como na crise de 2008 no mercado americano de hipotecas, que reverberou pelo mundo, e na pandemia, a economia do país teve um desempenho bem acima da média mundial.
Com o crescimento acelerado, o PIB per capita chegou a US$ 2,7 mil em 2022, nove vezes mais do que em 1990 e 21 vezes mais do que há 50 anos, quando era de apenas US$ 128 (R$ 640) em valores atualizados. Nos valores ajustados pelo poder de compra, o PIB per capita cresceu 7,4 vezes desde 1990, para US$ 7,4 mil, saltando das últimas posições do ranking mundial para o 126.º lugar entre 189 países, conforme os números do FMI e do Banco Mundial. Em 2015, graças a essa performance, Bangladesh deixou a lista dos países menos desenvolvidos para integrar o grupo de renda média baixa.
O crescimento do país teve como grande motor a indústria de vestuário para exportação, introduzida no país nos anos 1980 pelo grupo coreano Daewoo e impulsionada pelo governo, ao reduzir tarifas de importações feitas pelo setor. Hoje, Bangladesh se tornou o segundo maior exportador de roupas prontas do mundo, como agasalhos, camisetas, camisas e calças feitos principalmente de algodão, atrás apenas da China. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
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