Terça-feira, 28 de julho de 2026
Por Redação O Sul | 11 de maio de 2020
“Recebendo ótimos comentários, finalmente, sobre o quão bem estamos lidando com a pandemia”, escreveu o presidente americano Donald Trump, em sua conta de Twitter, no último dia 4, a menos de seis meses da eleição presidencial de novembro, na qual tentará ser reconduzido à Casa Branca.
O autoelogio em tom aliviado é um indicativo das aflições que atormentarão Trump nos próximos meses. Os Estados Unidos têm o maior número de casos e mortes por Covid-19 do mundo, e o republicano teme que sua performance no combate à epidemia, que já levou à pior recessão americana no século, com 30 milhões de desempregados, possa abater sua candidatura.
Até março, quando os Estados Unidos começaram a ver o número de doentes crescer vertiginosamente, ele minimizava o problema e atribuía aos adversários políticos o alarme com o coronavírus.
Trump tinha a seu favor uma economia com crescimento estável e em situação de pleno emprego. Em janeiro, se desvencilhara de um processo de impeachment ao mesmo tempo em que acirrava as tensões com o Irã, no Oriente Médio, e colhia o resultado de um novo acordo de comércio com México e Canadá e um cessar fogo na guerra comercial com a China – temas populares entre seus apoiadores.
Até que o coronavírus, que Trump reputava menos grave do que uma gripe comum, mostrou seu potencial destruidor. De acordo com a avaliação de epidemiologistas, a doença pegou os Estados Unidos despreparados para fazer testagem em massa, rastrear os casos e isolar os doentes. Até 8 de maio, o país registrava cerca de 75 mil mortos e 1,2 milhão de infectados.
“Nos últimos 3 meses, as chances de Trump se reeleger diminuíram. Primeiro porque, até fevereiro, ele planejava fazer uma campanha centrada nos bons resultados da economia, e isso se perdeu completamente. Segundo porque os resultados até agora sugerem uma má gestão da crise de saúde pública, ele não estava preparado”, afirma o cientista político Jonathan Hanson, da Universidade de Michigan.
Trump não ficou parado diante do derretimento de seu plano inicial de campanha. Ele adotou diferentes estratégias para tentar melhorar a percepção dos eleitores sobre seu trabalho.
A mais visível delas foi assumir, literalmente, o centro do palco e promover por mais de seis semanas conferências de imprensa diárias sobre os esforços do governo no combate ao coronavírus, transmitidas ao vivo pela internet e pela televisão.
Trump, que tem experiência como apresentador de reality show, fazia as vezes de um anfitrião em um programa de convidados, em que sucessivos especialistas da gestão – especialmente os médicos e pesquisadores da força-tarefa contra o vírus – explicavam as ações federais.
“Ver o presidente ir a público demonstrar que tem um plano e que pode coordenar os trabalhos é certamente algo que agradaria aos americanos”, diz Hanson.
As sessões, no entanto, começaram a ficar cada vez mais longas (algumas duraram duas horas), os conflitos com a imprensa se multiplicaram (Trump chegou a dizer à repórter da rede CNN que não comentaria sua pergunta porque ela era “fake news”) e o republicano acumulou declarações polêmicas, que acabavam desmentidas rapidamente, como a promessa de uma vacina em poucos meses ou de reabertura das atividades econômicas na Páscoa, o que não aconteceu.
Trump usou ainda as sessões de imprensa para culpar a China pela falta de informações sobre a periculosidade do vírus e adotou a expressão “vírus chinês” para se referir ao SARS-Cov-2. Também passou a tratar a Organização Mundial da Saúde (OMS) como responsável pela tragédia global, acusando a instituição de ser conivente com a falta de transparência chinesa. A estratégia servia ao mesmo tempo para retirar de si a culpa pela situação americana e para reafirmar o antagonismo em relação seu principal inimigo no jogo geopolítico.
“Esses eventos viraram uma espécie de comícios eleitorais em vez de transmissão de informação. E ele passou a promover potenciais tratamentos bizarros, nenhum comprovado. Em vez de torná-lo mais popular, as sessões começaram a gerar atenção negativa”, afirma o cientista político William Winecoff, da Universidade Indiana.
Com menos de seis meses para mostrar qualquer resultado que alivie a piora da economia, medida em retração de 4,8% do PIB no primeiro trimestre, Trump passou a pressionar os governadores dos 50 Estados a aliviar a quarentena e permitir o retorno de atividades econômicas.
A estratégia de Trump, segundo os especialistas, embute ainda um risco adicional: o de que a epidemia volte com força e provoque uma segunda onda de mortos às vésperas da eleição. “Para fazer a reabertura, os Estados Unidos precisariam ter ao menos uma boa quantidade de testes disponíveis e condições de rastreamento de casos. Não temos nem um, nem outro”, diz Hanson. As informações são da BBC News.
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