Quarta-feira, 19 de agosto de 2026
Por Redação O Sul | 2 de janeiro de 2021
O mercado editorial, que vinha tentando driblar a crise – que era macroeconômica, mas foi agravada pelos processos de recuperação judicial das redes Saraiva e Cultura –, precisou desacelerar ainda mais em 2020. Sem suas principais vitrines, as livrarias, fechadas por mais de três meses como medida para conter o avanço do coronavírus, as editoras diminuíram o número de lançamentos, foram para a internet para tentar falar ainda mais diretamente com seu cliente (e vender para eles) e, em alguns casos, iniciaram ou aderiram a campanhas de apoio a pequenos livreiros.
Um desses projetos, aliás, o Retomada das Livrarias, encabeçado pela Câmara Brasileira do Livro (CBL), arrecadou R$ 530 mil, que foram distribuídos para 53 pequenas e médias livrarias afetadas pela pandemia.
Nesse período, o setor como um todo sofreu um baque. Livreiros aprenderam a vender livro por telefone ou WhatsApp. Quem não tinha e-commerce correu para começar a vender online. E então, com a possibilidade de reabertura das lojas, fizeram as adaptações necessárias. Foi um ano de aprendizado.
Para Marcos da Veiga Pereira, presidente do Sindicato Nacional de Editores de Livros (Snel), o fechamento das livrarias foi justamente o momento mais difícil do ano. “Isso teve um impacto muito negativo para a indústria editorial. A esperança de uma recuperação das grandes redes (Saraiva e Cultura) praticamente terminou e com isso perdemos mais um número expressivo de lojas e vitrines. Durante os primeiros três meses as editoras reduziram seus lançamentos, e fechamos o ano com muita dificuldade de colocar novos livros no mercado, apesar da recuperação das vendas em geral e abertura de novas lojas”, comenta.
Saraiva e Cultura sobreviveram a este estranho ano, mas sua permanência ainda está em xeque, como novas assembleias com credores previstas para o início do ano. Enquanto isso, a rede Leitura cresce país afora, a Livraria da Vila experimenta novos espaços dentro e fora da cidade de São Paulo, a Travessa amplia sua loja de Pinheiros e outros livrarias independentes começam a surgir aqui e ali – uma delas é a Megafauna, no Copan.
Nos primeiros três meses da pandemia, a autoajuda dominou a preferência dos brasileiros e o gênero foi o mais vendido – dos 15 best-sellers, 10 eram de autoajuda. Na lista, havia também obras como Pequeno Manual Antirracista, de Djamila Ribeiro, e duas ficções de George Orwell, as únicas entre os top 15: A Revolução dos Bichos e 1984 – títulos que fazem coro às discussões que mobilizaram, no Brasil e no exterior, o debate.
E o que o mercado aprendeu em 2020? “Que o livro é resiliente, que o Brasil pode ser um país de leitores, e que devemos continuar a estimular a leitura no ‘novo normal’”, responde Pereira. Ele continua: “Aprendemos que nossas empresas estão mais preparadas para as crises, talvez calejadas pelos últimos cinco anos. E que a proximidade entre editores e livreiros é fundamental para nosso crescimento.”
Foi o pior ano da história de muitas pessoas e de diversos negócios. E o mercado sai dele com um misto de alívio e angústia, diz o editor, sócio da Sextante. Alívio pela proximidade da vacina e angústia pelo aumento do número de casos de covid-19. “Mas acredito que 2021 será um ano positivo, com a retomada das programações de lançamentos das editoras, a recuperação do varejo físico e o crescimento econômico do Brasil”, ele espera – apesar das duas pedras no sapato que ainda deixam o setor apreensivo – o projeto de reforma tributária proposto pelo Ministério da Economia e que abriu uma brecha legal para a taxação do livro e a sobrevivência das redes Saraiva e Cultura.
A nova pesquisa Retratos da Leitura, coordenada pelo Instituto Pró-Livro em parceria, pela primeira vez, com o Itaú Cultural e realizada pelo Ibope, apontou muitos dados ruins – e o principal é que diminuiu de 56% para 52% o número de leitores no Brasil. A pesquisa entende o leitor como alguém que leu, inteiro ou em partes, pelo menos um livro nos três meses anteriores ao levantamento. Quem não leu deu os seguintes motivos, entre outros menos significativos: falta de tempo (34%), não gosta (28%), não tem paciência (14%), prefere outras atividades (8%), tem dificuldade para ler (6%).
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