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Mundo Com parte da Venezuela em colapso, grupos terroristas se instalam no país

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Em Caracas, o presidente Nicolás Maduro ainda mantém um controle firme sobre as principais alavancas do poder. (Foto: Reprodução/Twitter)

Eles levam água potável aos moradores dos cerrados áridos, ministram oficinas agrícolas e oferecem exames médicos. Fazem mediação das disputas de terras, multam ladrões de gado, resolvem divórcios, investigam crimes e punem ladrões.

Mas eles não são policiais, funcionários públicos nem mesmo representantes do governo da Venezuela, o qual praticamente desapareceu desta parte empobrecida do país.

Muito pelo contrário: eles fazem parte de um dos mais notórios grupos rebeldes da América Latina, considerados terroristas pelos Estados Unidos e pela União Europeia por realizarem atentados e sequestros ao longo de décadas de violência.

O colapso econômico da Venezuela destruiu tão profundamente o país que os insurgentes se alojaram em grandes extensões de seu território, aproveitando a destruição da nação para estabelecer seus próprios mini-estados.

E longe de fugir de medo ou exigir o socorro das autoridades, muitos habitantes das fronteiras da Venezuela — famintos, caçados por gangues de traficantes locais e há muito reclamando por terem sido abandonados por seu governo — agradecem ao grupo terrorista a proteção e os serviços básicos que o Estado não consegue mais fornecer.

Os insurgentes “é que trouxeram estabilidade aqui”, disse Ober Hernández, líder indígena na península de Guajira, próximo da Colômbia. “Eles trouxeram paz”.

Guerrilheiros marxistas do Exército de Libertação Nacional, conhecido como ELN, o maior grupo rebelde remanescente da América Latina, começaram a cruzar a parte venezuelana da península no ano passado, vindos da Colômbia, onde estão em guerra com o governo há mais de 50 anos.

Com o país em frangalhos, o líder autoritário da Venezuela, Nicolás Maduro, há muito nega a presença de insurgentes colombianos em solo nacional. Mas, segundo algumas estimativas, guerrilheiros do outro lado da fronteira agora operam em mais da metade do território venezuelano, de acordo com militares colombianos, ativistas de direitos humanos, analistas de segurança e dezenas de entrevistas nas regiões afetadas.

O alcance dos insurgentes na Venezuela ficou ainda mais evidente no mês passado, quando o governo lançou a maior operação militar em décadas para expulsar uma facção dissidente de outro grupo rebelde colombiano — as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, ou FARC — do remoto Estado de Apure, onde os guerrilheiros montaram emboscadas e minas improvisadas.

Na capital, Caracas, Maduro ainda mantém um controle firme sobre as principais alavancas do poder e seus militares ainda são capazes de responder com força às ameaças ao seu governo. Mas em vastas regiões do país, o Estado venezuelano e sua autoridade estão encolhendo drasticamente, permitindo que grupos armados e organizações criminosas de todos os matizes assumam o controle, muitas vezes com consequências devastadoras.

O colapso econômico em que a Venezuela se precipitou — resultado de anos de má gestão governamental, seguidos de sanções paralisantes dos Estados Unidos contra o governo de Maduro — desencadeou na península uma guerra entre grupos criminosos pelo controle das rotas de contrabando para a Colômbia, disseram os moradores locais. Por dois anos, o peso da violência recaiu sobre o povo indígena Wayuu, que há muito tempo perambula entre os dois países.

Assim como em outras partes da América Latina, a Venezuela já abrigava grupos armados ilegais muito antes da atual crise econômica. Os guerrilheiros colombianos usam o interior da Venezuela como refúgio há décadas, e as negligenciadas favelas de Caracas há muito tempo são o lar do crime organizado.

Mas raras vezes as organizações criminosas exerceram tanto controle territorial e econômico quanto agora, uma poderosa ilustração do declínio do país sob o governo Maduro.

“A Venezuela está caminhando feito um sonâmbulo para a fragmentação nas mãos dos grupos armados”, disse Andrei Serbin Pont, analista de segurança da América Latina. “Recuperar o controle do território será um enorme desafio para quem estará no poder na Venezuela nas próximas décadas”.

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