Quinta-feira, 09 de abril de 2026
Por Redação O Sul | 22 de setembro de 2019
A conta misteriosa no Twitter tinha muito a oferecer a pessoas que gostam de tênis profissional, futebol europeu e tabloides britânicos. Desde o ano passado, ela passou a reproduzir notícias, geralmente em inglês, sobre Roger Federer e a Premier League, além de compartilhar notícias do tipo caça-cliques sobre a buldogue fêmea inglesa Zsa Zsa, vencedora do concurso de Cão Mais Feio do Mundo em 2018.
De repente, porém, a conta começou a postar em chinês materiais sobre uma obsessão diferente: a política de Hong Kong e da China continental. No verão deste ano ela já virara um “soldado” numa campanha oculta para influenciar a opinião das pessoas a respeito de uma das maiores crises políticas do mundo.
Esta conta no Twitter, e mais de 200 mil outras eram parte de uma ofensiva enorme de desinformação ao estilo russo, mas originária da China, diz a rede social agora. É a primeira vez que a gigante tecnológica americana atribui uma campanha desse tipo ao governo chinês.
Não é de hoje que a China emprega propaganda política e censura para sujeitar seus cidadãos a narrativas aprovadas pelo governo. À medida que cresce o lugar ocupado pelo país no mundo, Pequim vem recorrendo cada vez mais às plataformas de internet que bloqueia dentro da China, incluindo Twitter e Facebook, para promover sua agenda no restante do planeta.
A China vem fazendo isso em parte através de contas que cria nas plataformas de seus veículos noticiosos dirigidos pelo Estado, como o Diário da China, para apresentar argumentos públicos a favor de suas posições. Mas isso é muito diferente de usar contas falsas para manipular opiniões de modo oculto ou simplesmente para semear confusão.
“O objetivo final é controlar a discussão”, opinou Matt Schrader, analista da China junto à Aliança para Proteger a Democracia, do Fundo Marshall Alemão, em Washington. No mês passado, o Twitter fechou quase mil contas que disse fazerem parte de um esforço dirigido pelo estado chinês para solapar os protestos antigoverno em Hong Kong. A empresa também suspendeu outras 200 mil contas que, afirmou, estavam ligadas à operação chinesa, mas ainda não estavam muito ativas.
O Facebook e o YouTube seguiram seu exemplo. Todas as três plataformas são bloqueadas na China continental, mas não em Hong Kong. Os 3,6 milhões de tuítes enviados pelas contas representaram uma campanha menos sofisticada e montada mais às pressas do que a campanha lançada pela Rússia durante a eleição presidencial de 2016, disseram pesquisadores do Australian Strategic Policy Institute em pesquisa publicada neste mês.
Em vez de tomar o tempo para montar personalidades online plausíveis, embora falsas, os operadores da campanha parecem ter simplesmente comprado contas no mercado global clandestino de influência nas redes sociais, onde seguidores e retuítes custam pouco.
As contas postavam materiais em indonésio, árabe, português e outras línguas. Promoviam serviços de encontros, postavam sobre boy bands coreanas e retuitavam mensagens sobre música pop-punk.
Os autores do estudo australiano escrevem que a abordagem “de força bruta” sugere que a operação deve ter sido “uma resposta pronta à dimensão e força inesperadas dos protestos em Hong Kong, e não uma campanha planejada com bastante antecedência”.
Perguntado no mês passado se o governo era responsável pelas contas fechadas pelo Twitter e Facebook, um representante do Ministério do Exterior chinês disse que não sabia nada sobre o assunto. Em seu anúncio, o Twitter disse pouco sobre como determinou que as contas que fechou eram controladas pelo Estado. A empresa disse que faz um monitoramento de rotina para detectar campanhas desse tipo, mas se negou a dar maiores informações.
O governo chinês bloqueia o Twitter na China continental, mas, segundo a empresa, algumas das contas foram operadas a partir de endereços de internet chineses não bloqueados.
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