Quinta-feira, 11 de junho de 2026
Por Redação O Sul | 1 de maio de 2021
Digamos que, nos dias de hoje, qualquer médico está sujeito a disputar a atenção (e a confiança) do paciente com outro doutor, o Dr. Google. Foi partindo da observação de como se comportavam as pessoas com doenças inflamatórias intestinais na internet que a gastroenterologista Dídia Cury decidiu montar e conduzir um estudo aprofundado para examinar até que ponto as buscas pela rede e as mídias sociais impactam o tratamento e o bem-estar desses pacientes.
“Notávamos que muitos pacientes chegavam até nós por causa da internet, utilizavam bastante as mídias sociais e o Google para procurar sintomas e tirar dúvidas, enquanto outros queriam, com base nas informações encontradas, se medicar ou mudar o tratamento”, conta a médica, que dirige o Centro de Doenças Inflamatórias Intestinais da Clínica Scope, em Campo Grande (MS), e é professora visitante do Centro de Crohn e Colite do Brigham and Women’s Hospital da Universidade Harvard, nos Estados Unidos.
“Minha curiosidade inicial era saber como o Dr. Google influenciava essas pessoas no tratamento e, num segundo momento, pensamos em investigar também se ele afetava o grau de estresse e ansiedade delas.”
A doenças inflamatórias intestinais (DII) são problemas de saúde crônicos marcados, como o nome sugere, por uma inflamação no aparelho digestivo — nem sempre limitada ao intestino — e, em algumas situações, repercussões mais sistêmicas. Quem convive com elas costuma sofrer com dores, diarreias, constipação, entre outros perrengues. Os dois principais quadros de DII são a retocolite ulcerativa e a doença de Crohn.
Depois de reunir dados suficientes, Dídia procurou dois jornalistas especializados em mídias sociais e montou um questionário para aplicar na pesquisa. E, de olho no estado mental dos pacientes, se conectou com um psiquiatra para identificar a melhor forma de averiguar o grau de ansiedade e estresse que a web podia desencadear.
Por fim, a médica buscou uma ferramenta validada para apurar também de que forma a internet mexia com a adesão medicamentosa. Aprovado em comitê de ética, o estudo entrevistou 104 pacientes com uma média de idade de 37 anos.
Consultas a um clique
Após um período de 45 dias, a médica de Campo Grande e seus colaboradores conseguiram realizar as entrevistas e mensurar os resultados. Eles descobriram que pouco mais de 70% dos pacientes usavam a internet para obter informações gerais sobre as doenças inflamatórias intestinais. E quase nove em cada dez para procurar informações sobre sintomas.
A internet, de fato, se transformou numa ferramenta do cotidiano para sanar dúvidas e vasculhar novidades sobre as DIIs: 42% dos entrevistados a utilizavam com essa finalidade uma vez por semana; 10% diariamente; 3% duas vezes por semana; e 18% uma vez por mês.
“Percebemos que o Google é a principal via de busca para essas informações”, conta Dídia. Mais de 60% dos participantes se consultavam com ele, enquanto 16,7% frequentavam grupos online de pacientes em redes como Facebook, 16,2% recorriam a sites de saúde, 12,8% a sites médicos ou de entidades médicas, 13,7% ao YouTube, 6,9% ao WhatsApp e 17,8% a sites em geral.
E o que motivava essas incursões pela web? Seis em dez pacientes buscavam complementar o conhecimento de que dispunham sobre a doença; 36,6% queriam comparar suas experiências com a história de outros portadores de DII; 12,8% procuravam saber novidades a respeito; e 12,9% davam uma checada na prescrição médica. O nível de confiança nos conteúdos consumidos foi de 64,4%.
Dídia Cury relata sempre ter se preocupado com um possível impacto negativo da internet: o aumento de insegurança, estresse e ansiedade entre os pacientes. Como se as informações ali encontradas pudessem deixá-los mais desnorteados e tensos diante da doença e seu tratamento. Mas não foi isso que os pesquisadores observaram.
Pouco mais de 40% dos entrevistados disseram se sentir melhor após as buscas e o uso da rede para saber mais sobre o problema com o qual convivem. O percentual dos que ficavam mais estressados com isso foi significativamente menor.
“Outro aspecto positivo que identificamos foi o fato de 43% dos entrevistados relatarem que as informações obtidas pela internet não interferiram no tratamento nem os fizeram mudar algo em relação à orientação médica”, destaca a gastroenterologista.
Em vez de forjar uma barreira entre médico e paciente, Dídia acredita que a internet pôde, pelo contrário, estreitar a relação. Mais de 20% dos entrevistados disseram que, após as leituras pela web, conseguiram questionar ou fazer mais perguntas na primeira consulta.
“Além de não aumentar o nível de estresse e ansiedade nesses pacientes, nenhum deles mudou a medicação com base no que achou pela internet”, pontua a médica.
Essa é uma questão particularmente decisiva aos olhos da coordenadora da pesquisa. Não são poucos os profissionais que temem o abandono de um tratamento após buscas pelo Google e as redes sociais. Mas, pelo menos nesse cenário da DII (com prevalência de adultos jovens e com maior nível educacional), isso não aconteceu. “Se a relação médico-paciente está sólida, acredito que a internet não prejudicará a adesão aos medicamentos”, avalia Dídia.
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