Sexta-feira, 18 de Setembro de 2020

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Cinema Como filmar cenas de sexo durante uma pandemia: os manequins entram em cena

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Os produtores de 'Legacies' estão considerando criar uma grupo especializado em intimidade na tela. (Foto: Reprodução)

Em meio a tantos efeitos estranhos da covid-19, um dos mais bizarros está ocorrendo em um estúdio de Los Angeles. É onde o elenco da série The Bold and the Beautiful, da CBS, está gravando as cenas de intimidade usando manequins.

“No início, tiramos as cenas de romance, e o programa perdeu parte do encanto, pois a trama tem muitos casos amorosos e interações de família”, disse Bradley Bell, produtor executivo do drama que vai ao ar durante o dia na CBS. “Uma das primeiras ideias que tivemos foi trazer manequins para as cenas de intimidade e aquelas situadas no hospital, e o resultado está funcionando bem – usamos planos distantes, ou ângulos nos quais não se nota que a forma é inanimada.”

Como o elenco reage ao contracenar com bonecos sem vida? “Recebemos olhares curiosos e perguntas do tipo, tem certeza que quer fazer isso?” disse Bradley. “Mas todos toparam. Estão dando seus primeiros beijos de látex.”

The Bold and the Beautiful foi uma das primeiras séries de TV a retomar a produção após o fechamento da indústria a partir de meados de março. Desde então, a maioria dos criadores de programas de TV tem se reunido com os colegas via “Zoom Rooms”, criando tramas e episódios, sem saber se – e quando – poderão registrar essas ideias com as câmeras.

A covid-19 tem sido particularmente difícil para os roteiristas de algumas das séries mais quentes e românticas da TV, com a necessidade de pensar em como mostrar intimidade física – as cenas que atraem o público e suscitam hashtags no Twitter – e garantir a segurança do elenco. Até o momento, os produtores de programas como Riverdale, Dynasty e The L Word: Generation Q estão planejando usar uma combinação de protocolos de segurança e truques narrativos. Exemplos são um regime agressivo de testes para elenco e equipe, quarentenas, presença de profissionais médicos no set de filmagem, peripécias com a câmera, ilusões e roteiros insinuantes repletos de um subtexto que lembra a TV dos anos 1970 (todos sabiam que Mary Richards, do The Mary Tyler Moore Show, tinha uma vida sexual ativa, ainda que o seriado nunca tocasse no assunto).

E às vezes entram em cena os manequins, é claro.

Riverdale, por exemplo, foi interrompida nos momentos finais do último ano dos personagens no ensino médio – o baile de formatura foi filmado, mas a cerimônia de entrega dos diplomas, não. Roberto Aguirre-Sacasa, responsável pelo seriado da CW, planeja usar manequins para formar o público da cerimônia, mas não nas cenas de intimidade. Na verdade, o mais provável é que o elenco tenha muito menos cenas de nudez parcial.

O drama Legacies, voltado para jovens adultos e explorando o gênero dos vampiros e adjacências, não chegou a rodar uma aguardadíssima reunião romântica entre dois dos personagens principais antes da produção ser interrompida. É algo que não sai da cabeça da produtora executiva Julie Plec, que está pensando em estratégias para mostrar o que o público espera mesmo com a pandemia.

“Vinte episódios sem beijo é muito tempo, o que nos leva a pensar na logística de como fazer isso funcionar”, disse Julie. “Talvez possamos montar uma equipe separada para as cenas de intimidade, com seu próprio procedimento de quarentena e teste. Talvez possamos contratar uma equipe só para isso.”

Esse raciocínio segue as sugestões do documento The Safe Way Forward [O jeito seguro de seguir adiante, em tradução livre] de 36 páginas, criado conjuntamente por quatro grandes sindicatos de Hollywood: SAG-AFTRA, Directors Guild of America, International Alliance of Theatrical Stage Employees e Teamsters. Entre as recomendações está o uso de uma abordagem “setorizada” para a produção, limitando o número de funcionários e membros do elenco presentes nos sets onde o uso de equipamento de proteção pessoal é impossível. Os sindicatos também pedem que a jornada de trabalho seja limitada a 10 horas para permitir mais tempo para a limpeza, e testes semanais e rápidos (com resultado pronto em 1-12 horas) de covid-19 para todos os funcionários e membros do elenco envolvidos em cenas de intimidade.

É a primeira vez em décadas que os quatro grupos lançam protocolos em conjunto.

“Certamente veremos no set um maior número de profissionais com treinamento especial”, diz Duncan Crabtree-Ireland, diretor de operações e diretor-geral jurídico do SAG-AFTRA.

Ele acrescenta que coordenadores de intimidade – que se tornaram presença comum em muitas produções na esteira do movimento #MeToo, para garantir o conforto e segurança do elenco – também podem ser treinados em técnicas de prevenção da covid-19.

É claro que esses problemas não afetam apenas a programação adolescente. The L Word: Generation Q, revival da série revolucionária da Showtime, estreou em dezembro com uma cena explícita de sexo com 1m20s de duração. Momentos desse tipo que só podem ser mostrados nos canais pagos se tornaram marca do programa, trazendo um desafio para a produtora Marja-Lewis Ryan, envolvida com sua equipe no planejamento da segunda temporada.

“Tento escrever em duas fases diferentes”, disse Marja-Lewis. “Primeiro escrevo meu sonho, e então alguém me diz, ‘Seu sonho não vai se realizar’. Então, tento descobrir qual é a parte do sonho mais importante para mim, e faço os ajustes com base nisso.”

“Meu histórico no cinema independente tem um papel imperativo, pois nesse universo ouve-se a palavra ‘não’ o tempo todo”, acrescentou ela. “Gosto de charadas, e talvez tudo fique bem.”

Como muitos outros produtores entrevistados para essa matéria, Marja-Lewis pensa em limitar o número de astros convidados e atores secundários – quem vive de atuar como figurante na TV terá um ano difícil – e contratar os cônjuges reais dos atores e atrizes (The Bold and The Beautiful já fez isso). Várias pessoas envolvidas em L Word estão namorando ou são casadas com pessoas “que por acaso atuam muito bem”, disse Marja-Lewis.

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