Quinta-feira, 01 de outubro de 2026
Por Redação O Sul | 30 de setembro de 2026
Todos os anos, desde 1950, no primeiro sábado depois de 15 de setembro, o prefeito de Munique, a capital da Baviera, na Alemanha, tem um compromisso marcado. Exatamente ao meio-dia, ele precisa estar na Theresienwiese (Campo de Teresa), uma grande área aberta perto do centro da cidade, em uma tenda, diante de um barril de cerveja e com um pesado martelo de madeira nas mãos.
Sua missão é introduzir uma torneira de latão, com a menor quantidade possível de golpes para evitar que a cerveja espirre. Quando consegue, grita “O’zapft is!” (Já está aberta!), e exclama “Auf eine friedliche Wiesn!” (Por uma Oktoberfest em paz!), dando início ao disparo de 12 salvas de canhão a partir da escadaria da monumental estátua da Baviera, a mulher que simboliza a força, o orgulho e a identidade da região.
O som dos disparos de canhão é o tiro de largada do maior festival folclórico do mundo. Mais de seis milhões de pessoas chegam de todos os cantos do planeta para celebrar as tradições bávaras.
Muitos dos presentes, moradores ou não, usam os trajes típicos daquela região alpina.
Durante os 16 ou 18 dias de duração do evento, a Theresienwiese se transforma em um gigantesco parque de diversões, com carrosséis e montanhas-russas.
Mas a verdadeira atração são seis enormes tendas. Nelas, são servidos rios de cerveja, uma quantidade suficiente para encher quase 3 piscinas olímpicas, frequentemente acompanhada por um dos mais de 1,2 milhão de brezn, enormes pretzels bávaros assados durante o festival.
Tudo é grande, abundante, barulhento e alegre, e tudo começou há mais de dois séculos, com outra festa popular exuberante, embora diferente, que não aconteceu em setembro nem, estritamente falando, na Alemanha, pois ainda faltavam seis décadas para que ela existisse como país.
Em 1809, a inteligente e bela princesa Teresa de Saxe-Hildburghausen figurava na lista de candidatas a esposa de Napoleão Bonaparte, que procurava uma mulher de sangue real.
Quase toda a Europa estava sob o controle ou a influência do imperador francês. A Alemanha não existia como um país unificado; era um mosaico de pequenos reinos e ducados.
Luís, o príncipe herdeiro do recém-proclamado reino da Baviera, sentia uma rejeição visceral à imposição cultural e militar francesa e era um dos grandes promotores do incipiente nacionalismo cultural germânico: o sonho de uma identidade compartilhada para além das fronteiras.
Assim, viajou para conhecer Teresa e pediu sua mão quase imediatamente: uma união com uma princesa de um ducado germânico, em plena guerra napoleônica, era uma jogada de mestre.
“Eu me caso sem paixão, já que isso é mais vantajoso para o futuro”, escreveu à sua irmã, a princesa Carolina Augusta da Baviera.
A falta de amor não era incomum nos casamentos reais. O insólito foi a forma como o casamento foi celebrado.
Em vez de uma cerimônia a portas fechadas com a aristocracia, convidaram o povo para uma festa descomunal de 5 dias, com a cidade iluminada, ópera e baile gratuitos, mesas com comida e cerveja custeadas pelo rei em praças e tavernas.
Houve até desfiles infantis com trajes típicos de regiões recém-anexadas ao reino, como a Francônia e a Suábia, pois a coroa bávara queria mais do que uma festa.
Segundo vários historiadores, a celebração foi planejada para que comunidades culturalmente distintas se percebessem como uma única nação.
A celebração culminou em 17 de outubro com uma corrida de cavalos em um campo fora das muralhas da cidade, à qual compareceram cerca de 40 mil pessoas.
Não parece muito em comparação com os milhões que chegam hoje ao mesmo local, até que se leva em conta que, segundo o Serviço de Estatística da Cidade de Munique, em 1810 a cidade tinha apenas 40.638 habitantes.
O sucesso foi tamanho que o rei decidiu batizar aquele campo em homenagem à sua nora. O local passou a se chamar Theresienwiese. E a festa, realizada originalmente em outubro, ficou conhecida como Oktoberfest.
Quando a festa foi repetida no ano seguinte, houve uma exposição agrícola, algo que continua sendo feito hoje a cada três anos; as primeiras barracas de cerveja e o primeiro carrossel chegaram em 1818.
Quando o festival termina hoje em dia, terão sido cheias entre 6,5 milhões e 7,5 milhões de canecas com cervejas produzidas especialmente para o evento pelas únicas seis marcas autorizadas a servir no festival, pois elas são produzidas de acordo com a lei de pureza e dentro dos limites urbanos da cidade de Munique.
A Oktoberfest também criou raízes do outro lado do oceano, pelas mãos de comunidades de imigrantes alemães.
Blumenau, cidade de Santa Catarina fundada em 1850, é conhecida nacionalmente por sua forte herança cultural alemã e por sediar a maior Oktoberfest das Américas.
Mas lá o festival quase não chegou a nascer: estava planejado para 1983, mas uma inundação catastrófica do rio Itajaí-Açu, que devastou a região e deixou 49 mortos, obrigou seu adiamento.
No ano seguinte, quando a cidade se preparava para celebrá-lo, uma segunda enchente voltou a atingi-la.
Ainda assim, as autoridades decidiram seguir em frente: em outubro de 1984 foi realizada a primeira edição, como uma forma deliberada de elevar o ânimo e reativar a economia local.
Foram 102 mil pessoas que brindaram com 103 mil litros de cerveja. Hoje é a segunda maior Oktoberfest do planeta, depois da de Munique.
Mas, nas montanhas do estado de Aragua, na Venezuela, há uma versão do festival ainda mais intacta.
Fundada em 1843 por quase 400 colonos vindos da região de Kaiserstuhl — então parte do Grão-Ducado de Baden —, a Colônia Tovar permaneceu praticamente isolada do restante do mundo por um século devido à geografia da região.
Aqui, a herança não é bávara, mas do sudoeste da Alemanha. Seus habitantes ainda preservam a arquitetura enxaimel, a gastronomia da Floresta Negra e, em alguns casos, o alemão coloniero, um dialeto alemânico único no mundo.
Realizada desde o fim dos anos 1970, a Oktoberfest da cidade se destaca pela preservação das tradições, com cervejas artesanais que dão continuidade ao legado da família Benitz, responsável por instalar ali a primeira cervejaria do país em meados do século 19.
Enquanto isso, no sul do Chile, a tradição cervejeira está ligada à história do próprio Estado. Em 1845, o governo promulgou a Lei de Imigração Seletiva com o objetivo de povoar e desenvolver economicamente as terras austrais.
Milhares de famílias alemãs se estabeleceram na região do lago Llanquihue e, em 1984, seus descendentes organizaram a primeira Bierfest de Llanquihue no Clube Ginástico Alemão da cidade para preservar seus costumes.
Diferentemente das feiras comerciais modernas, o evento mantém um forte caráter familiar e comunitário. As receitas tradicionais de salsichas e confeitaria (Kuchen) são preparadas pelos tataranetos daqueles pioneiros agrícolas. As informações são da BBC News.
Verificação de Email - você receberá um email de confirmação após enviar o seu primeiro comentário, mas ele só será publicado depois que você clicar no link de verificação enviado para a sua conta de e-mail para confirma-lo. Os próximos comentários serão publicados automaticamente por 30 dias!