Sexta-feira, 29 de maio de 2026
Por Redação O Sul | 10 de outubro de 2020
Um manifesto articulado por três cientistas americanos e britânicos com uma tese controversa, na contramão do que defende a OMS, ganhou a assinatura de mais de 4.000 cientistas e 9.000 médicos, defendendo o relaxamento seletivo de medidas de distanciamento social. Batizado de Declaração de Great Barrington, o documento argumenta que jovens deveriam ser liberados de lockdowns e quarentenas para a “vida normal”, de forma que se construa uma massa de população imune à Covid-19 por meio da exposição natural ao vírus. A ideia é forçar a criação de uma “imunidade de rebanho”, um limiar em que há tantas pessoas imunes numa população que a epidemia para de crescer.
Apesar de não representar corrente dominante de opinião entre epidemiologistas, o documento ganhou impulso após um dos articuladores do manifesto ter sido recebido na Casa Branca.
Martin Kulldorff, professor de medicina na Universidade Harvard, foi recebido por Alex Azar, secretário de Saúde e Serviços Humanos dos EUA, e Scott Atlas, conselheiro próximo do presidente Donald Trump.
Além de Kuldorff, a declaração tem como signatários principais Sunetra Gupta, epidemiologista da Universidade de Oxford, e Jay Bhattacharya, professor de economia médica em Stanford.
O manifesto, que foi subscrito por mais de 9.000 médicos e 130 mil leigos até a quinta-feira (8), defende que as atuais poltícas de distanciamento social sejam trocadas por uma abordagem que eles chamam de “proteção focalizada”:
“Isso é permitir que aqueles que estão em risco mínimo de morte vivam normalmente a sua vida para construir imunidade ao vírus através da infecção natural, ao mesmo tempo que protege melhor aqueles que estão em maior risco.”
No documento, os autores também argumentam que o risco de morte por Covid-19 é “mil vezes maior nos idosos e doentes do que nos jovens” e que caso esses sejam infectados, uma população pode “gozar da proteção conferida aos vulneráveis por aqueles que acumularam imunidade de grupo”.
Apesar de contar com pesquisadores de algumas universidades de renome, estão fora do documento muitos cientistas que têm exercido influência nas políticas públicas de combate à Covid, como Marc Lipsitch, da Universidade Harvard, e Neil Ferguson, do Imperial College de Londres.
Essas instituições não endossam o manifesto encabeçado por Kuldorff. Apesar de o documento afirmar ter signatários “de direita e esquerda”, sua cerimônia de assinatura foi realizada no American Institute for Economic Research, que se dedica a promover “liberdades pessoais, mercado livre, propriedade privada, dinheiro estável e governança privada”.
A instituição fica em Great Barrington, no interior de Massachusetts (EUA), de onde saiu o nome do manifesto. O liberalismo econômico dos EUA é um dos nichos ideológicos que mais tem pressionado pela retomada das atividades em meio à pandemia.
O epidemiologista Adam Kucharski, da London School of Hygiene and Tropical Medicine, criticou a proposta de colocar jovens na “vida normal” e confinar idosos, afirmando que os autores não apontam como ela deveria ser feita na prática, pois grupos de risco estão muito misturados ao restante da sociedade.
“Se não isolarmos completamente os grupos de risco do restante da sociedade poderíamos fazer isso tentando estabelecer restrições severas de prevenção à infecção entre seus contatos, mas teríamos que aceitar um alto nível de doenças severas”, argumentou, em uma postagem em uma rede social.
O cientista reconhece que os danos econômicos e sociais das medidas de distanciamento social são preocupação real, mas criticou a solução proposta. “É preciso pensar nas implicações disso e ter honestidade em reconhecer quais seriam as consequências.”
A Declaração de Great Barrington listava mais de 600 assinaturas do Brasil, entre especialistas e público geral. O sistema de endosso do documento, porém, não possui verificação, e alguns nomes na lista são sátiras evidentes.
Um dos cientistas brasileiros signatários era o professor “Coronguito Maroto”, do “Institute for Vertical Insulation”, um centro de pesquisa que não existe no Brasil.
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