Terça-feira, 26 de maio de 2026
Por Redação O Sul | 9 de agosto de 2021
Se os casos de covid-19 voltaram a aumentar em diversos países que tinham a doença sob controle, a situação em boa parte da América do Sul atualmente vai na direção contrária. Após meses como um dos epicentros globais do vírus, a região viu os novos diagnósticos diminuírem 59% desde junho, apesar de olhar com apreensão para a variante Delta e seu risco de contágio acentuado.
As taxas regionais são impulsionadas pela melhora no cenário brasileiro, mas as situações de Argentina, Colômbia e Paraguai chamam atenção. O trio vê uma queda sustentada do contágio há semanas, melhora que, para especialistas, deve-se a uma multiplicidade de fatores — entre eles, a vacinação.
Se o Chile e o Uruguai já vacinaram mais de 70% de suas populações, obtendo desde o final de junho quedas drásticas de casos e mortes, Argentina, Colômbia e Paraguai estão ainda distantes da imunidade de rebanho. Ainda assim, a campanha já começa a surtir efeito, principalmente nas faixas etárias mais vulneráveis.
Na Argentina do presidente Alberto Fernández, as novas infecções caem há 10 semanas consecutivas — apenas na última quinzena, diminuíram 23%. As mortes, por sua vez, caem há oito semanas.
Problemas com vacinação
Até o momento, 57,1% dos argentinos receberam ao menos uma injeção, mas apenas 17,5% tomaram a segunda. A discrepância, uma das maiores da região, deve-se a problemas com a entrega das segundas doses das vacinas Sputnik V.
Diferentemente dos outros inoculantes, as fórmulas da primeira e da segunda doses da Sputnik são diferentes. O governo russo vem tendo problemas para entregar as injeções derradeiras: apenas 20% das vacinas recebidas por Buenos Aires correspondem a segundas doses.
Pressionado por ameaças argentinas de romper o acordo de fornecimento, a Rússia prometeu resolver o problema. Já enviou, por exemplo, 500 litros do princípio ativo para que Buenos Aires possa acelerar a produção das segundas injeções em seu território.
Alta eficácia
Uma pesquisa realizada pelo Instituto de Virologia da Argentina e pela Universidade Nacional de Córdoba constatou que 85,5% das pessoas inoculadas com a Sputnik desenvolveram anticorpos 14 dias após a vacina. A maior parte das mortes e internações no país hoje, diz Pizzi, ocorre em pessoas não inoculadas ou que já estavam internadas havia muito tempo. O professor crê que a situação atual permite flexibilizações, mas com limites:
“A indisciplina está presente. Para sair desta tragédia, precisamos de vacina e disciplina. Hoje temos vacina, mas a disciplina está faltando”, afirmou, apontando que 35% dos argentinos nunca aderiram às restrições sanitárias.
Já na Colômbia, onde os novos casos caíram 50% nos últimos 14 dias, a vacinação está ainda mais atrás. Até o momento, apenas 37% dos colombianos receberam ao menos uma dose. Quase um quarto deles recebeu as duas.
Para Lyda Osorio, epidemiologista da Universidade del Valle, a vacinação tem um impacto na contenção da doença, mas não explica sozinha a queda. É natural do ciclo de doenças infecciosas, ela diz, que haja oscilação dos casos.
Variante Delta
Na prática, diz Osorio, a vida no país é hoje bastante similar à pré-pandemia. Algumas restrições permanecem para grandes aglomerações e lugares como boates, que começam a reabrir gradualmente. As aulas presenciais também foram retomadas.
O Paraguai, em paralelo, vacinou uma parcela ainda menor de sua população: 25,76% receberam ao menos uma dose e menos de 5% receberam as duas. O atraso, em parte, deve-se também aos problemas para receber as segundas injeções da Sputnik.
Ainda assim, na semana passada, a região de Assunção deixou de ser considerada uma área de alto risco de transmissão pela primeira vez em um ano. O governo, contudo, reforça que o uso de máscaras continua a ser imperativo e que não se deve relaxar.
Em todos os três exemplos, as mortes demoraram mais para cair que os casos. Isso, apontam os especialistas, é consequência dos ciclos da doença, cujo período de incubação pode chegar a 14 dias. Além disso, não é raro que pacientes graves fiquem internados por semanas ou meses.
Apesar das melhoras, os três países continuam a figurar na lista dos 20 que registram mais mortes por 1 milhão de habitantes, segundo o Our World in Data, um projeto da Universidade de Oxford. E o temor é que a variante Delta chegue antes que a situação se estabilize por completo.
Na Colômbia, disse Osorio, as fronteiras extensas dificultam um controle eficaz das mutações que entram no país, e a tendência é que mais casos sejam registrados nas próximas semanas. Pizzi também crê que seja uma questão de dias até que se constate transmissão local na Argentina. O impacto da Delta, concordam, dependerá da velocidade com que as vacinas, e em particular as segundas doses, cheguem às pessoas.
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