Segunda-feira, 10 de Maio de 2021

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Saúde Covid-19 grave é rara em crianças e adolescentes, mas causou mais de mil mortes

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Número preocupa e reforça a necessidade de cuidados, porém ainda é considerado baixo em relação à população em geral e em comparação a outras causas de morte.

Foto: Reprodução
Número preocupa e reforça a necessidade de cuidados, porém ainda é considerado baixo em relação à população em geral e em comparação a outras causas de morte. (Foto: Reprodução)

Após mais de um ano do início da pandemia de coronavírus, algumas impressões iniciais sobre a Covid-19 se mostraram equivocadas. Entre elas, a de que a doença só atingia pessoas idosas e com doenças crônicas, e que as crianças e adolescentes estariam imunes.

Mas, à medida que os mais jovens foram expostos ao vírus, eles também começaram a se contaminar e desenvolver formas mais graves e fatais da doença. Desde o começo da pandemia no Brasil, em março de 2020, mais de mil crianças e adolescentes já morreram de Covid-19, de acordo a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e o Ministério da Saúde.

O número deve servir como alerta para os pais, mas não é motivo para desespero, de acordo com especialistas. A mortalidade por Covid-19 nessa faixa etária é considerada baixa quando comparada a outras causas nesse grupo.

“Antes dos 5 anos, a maior causa disparada são problemas de má-formação ou relacionados ao parto. Após essa idade, lideram o ranking o homicídio, os acidentes, como os de trânsito e doméstico, e o câncer”, diz o médico Paulo Telles, pediatra e neonatologista pela SBP.

Além disso, as infecções graves e fatais nessas faixas etárias continuam raras. E as estatísticas comprovam que as taxas de hospitalização, de mortes e de letalidade da doença no Brasil são muito menores nesse grupo do que em outras faixas etárias (veja quadro abaixo) e estão em baixa na comparação entre 2020 e 2021.

A maioria das crianças costuma ser assintomática ou apresentar sintomas leves, afirma Werther Brunow de Carvalho, professor titular de Terapia Intensiva e Neonatologia do Departamento de Pediatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

“Em bebês abaixo de um ano, são comuns dificuldades na alimentação e febre. Nas crianças até nove anos, a tosse seca e a febre são mais recorrentes. Já entre 10 e 19 anos, somam-se dores musculares, falta de ar, diarreia, falta de olfato e paladar, além de coriza”, explica.

O motivo pelo qual a doença se manifesta dessa forma nessas faixas etárias continua incerto, segundo o médico infectologista Marco Aurélio Sáfadi, do Hospital Infantil Sabará e presidente do Departamento Científico de Infectologia da Sociedade Brasileira de Pediatria, que é coautor de um recente estudo sobre o tema.

Ele diz que entre as hipóteses levantadas estão a de que as crianças teriam menor quantidade de receptores do vírus, maior exposição recente a outros coronavírus comuns (como o que causa resfriado), o que propiciaria uma proteção cruzada, e imunidade inata mais desenvolvida.

O perigo da SIM-P

Apesar de raros, casos graves e mortes de crianças por Covid-19 podem ocorrer, e a maioria está relacionada à Síndrome Inflamatória Multissistêmica Pediátrica (SIM-P). A SIM-P pode se manifestar em até 4 semanas depois da contaminação inicial pelo SARS-CoV-2 e é caracterizada por febre persistente e inflamação em diversos órgãos, como o coração, o intestino e, em menor grau, os pulmões. A enfermidade também leva a dores abdominais, insuficiência cardíaca e convulsões.

Conforme artigo publicado pelo periódico Nature após uma abrangente revisão de estudos com pacientes que tiveram Covid-19, a Síndrome Inflamatória Multissistêmica tem afetado desproporcionalmente crianças e adolescentes de etnia africana, afro-caribenha ou hispânica.

O filho da terapeuta Mariana Rolim passou sete dias internado, sendo cinco deles na UTI, devido à SIM-P. A mãe conta que Matias, de 8 anos, teve a forma assintomática da Covid-19, provavelmente em junho do ano passado, quando ela e o marido adoeceram. Porém, após algumas semanas, a criança apresentou sintomas que foram considerados pelo médico que o atendeu como os de uma virose comum.

“Naquela época, quase ninguém era testado. Então, prescreveram apenas um anti-inflamatório”, relembra a mãe. Já em casa, o estado de saúde da criança piorou. “Ele tinha uma febre que não passava, indisposição e dores na barriga. Voltei com ele ao hospital e, dessa vez, os exames apontaram uma inflamação generalizada, que o levou à internação e à UTI.”

Depois de receber alta, Mariana conta que o filho ainda precisou tomar remédios por dois meses. “O Matias ficou por muito tempo aterrorizado pela quantidade de picadas que precisou tomar no hospital para receber soro, e fazia exames recorrentes. Estive ao lado dele o tempo todo, vi sua pressão arterial chegar a 4 por 3 [equivale a 40 x 30mmHg]. Não desejo isso a mãe alguma”, diz.

Crianças x uso de máscaras

Uma das principais dúvidas dos pais é se crianças devem ou não usar máscaras. E a resposta é sim. Segundo Telles, pediatra da SBP, junto do distanciamento social e da higiene das mãos, o uso de máscara ainda é a maneira mais fácil de evitar a contaminação pelo novo coronavírus. “É importante esclarecer dúvidas comuns sobre o uso da máscara por crianças, principalmente por causa da altíssima quantidade de fake news que chega aos pais e cuidadores”, afirma.

O especialista ressalta a importância de se desmentir informações mentirosas que circulam em aplicativos e redes sociais, como a suposta dificuldade de absorção de oxigênio que a máscara provocaria, a ponto de prejudicar o cérebro e os pulmões da criança. As fake news falam ainda que ela poderia interferir no desenvolvimento da criança e até causar intoxicação por gás carbônico, o que não é verdadeiro.

“As máscaras são feitas de materiais respiráveis, não prejudicam a absorção de oxigênio nem atrapalham o foco e a concentração da criança”, explica o médico. Contudo, vale o alerta de que crianças com menos de dois anos não devem usar máscara porque não são capazes de removê-la sem ajuda.

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