Sábado, 20 de junho de 2026
Por Redação O Sul | 19 de abril de 2017
Dois delatores da Odebrecht apresentaram versões diferentes sobre o encerramento do Setor de Operações Estruturadas, o departamento de propinas da empresa.
No início de 2015, um ano depois do início da Operação Lava Jato, parte do setor foi transferida para a República Dominicana e dois funcionários se mudaram para o exterior, a pedido do então presidente Marcelo Odebrecht.
Em seu depoimento à força-tarefa da Lava Jato, em dezembro de 2016, o herdeiro do grupo disse que a decisão tinha como objetivo encerrar as atividades ilícitas.
“O que eu disse foi ‘feche as contas, acaba com as operações estruturadas e vai para o exterior trabalhar com mais serenidade e sem risco de grampo”, afirmou Marcelo Odebrecht a procuradores.
Mas Hilberto Mascarenhas da Silva, chefe do Setor de Operações Estruturadas naquele momento, relatou que a transferência, uma exigência de Marcelo Odebrecht, era uma tentativa de driblar o monitoramento das autoridades e manter as operações.
“Ele queria evitar o risco. Estava sentindo que alguma coisa estava prestes a acontecer e aí exigiu que a área, para continuar, fosse fora do Brasil”, afirmou Silva.
Marcelo Odebrecht foi preso meses depois, em junho de 2015. Seu pai, Emílio Odebrecht, assumiu a empresa e só então, segundo disse o patriarca ao Ministério Público Federal, os repasses ilícitos foram interrompidos.
“Quando eu, logo uma semana depois (da prisão de Marcelo), oficializava a entrada no Newton (de Souza) como presidente substituindo o Marcelo e, ao mesmo tempo, definia uma série de regras dentro da organização, foi que daí para frente terminou o caixa dois, zerava. Os compromissos que existiam morreram. Desfazer tudo, não existe mais”, afirmou Emílio.
Em sua delação, Marcelo Odebrecht disse que não tinha conhecimento da totalidade de operações ilícitas, dada a descentralização da empresa, e responsabilizou o departamento de propinas.
“O pessoal de Operações Estruturadas, se estiverem falando a verdade, podem confirmar. Durante todo o ano que eu coloquei o pessoal do jurídico da empresa para fazer investigação, eles omitiram a real exposição nossa”, afirmou Marcelo.
“Eu estava preso e, com esse nível de descentralização aí fora, a empresa parou, não era capaz de tomar nenhuma decisão, nem para o bem nem para o mal. Foi o que de fato aconteceu também. Tanto que todo mundo disse que a maneira como a Odebrecht conduziu a gestão pós-crise foi a pior entre todas as empresas”, disse Marcelo.
“Eu não fui. Porque, quando senti que Marcelo ia ser preso e passou a bola para Felipe, eu digo, vou para lugar nenhum, não vou fugir daqui, não tenho por quê.”
Dois funcionários do departamento de propinas, o tesoureiro Fernando Migliaccio e Luiz Eduardo Soares, “estruturador de pagamentos vultuosos no exterior” se mudaram com as famílias para os EUA e trabalhavam na República Dominicana.
Em nota, a Odebrecht disse “entender que é de responsabilidade da Justiça a avaliação de relatos específicos feitos pelos seus executivos e ex-executivos”.
“A empresa está colaborando com a Justiça no Brasil e nos países em que atua. Já reconheceu os seus erros, pediu desculpas públicas, assinou um acordo de leniência com as autoridades brasileiras e da Suíça e com o Departamento de Justiça dos Estados Unidos, e está comprometida a combater e não tolerar a corrupção em quaisquer de suas formas.”
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