Segunda-feira, 21 de Setembro de 2020

Porto Alegre

Brasil Depois de anos e anos considerados “vilões”, agora os transgênicos são a regra na agricultura brasileira

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Cereais modificados geneticamente ainda são alvo de questionamentos. (Foto: EBC)

A soja transgênica RR (Roundup Ready), da multinacional Monsanto, foi aprovada por unanimidade pela CTNBio em setembro de 1998, sob fortes críticas de entidades ambientalistas e de defesa do consumidor. Passados 20 anos, as polêmicas que cercam os alimentos geneticamente modificados persistem em parte na opinião pública, mas não no campo.

Quase 100% da produção brasileira de soja, milho e algodão agora é transgênica, com 53 milhões de hectares plantados – área equivalente a duas vezes o Estado de São Paulo. Os dados são de um levantamento inédito da consultoria Agroconsult, ao qual o Estado teve acesso com exclusividade.

A taxa de adoção da tecnologia chegou a 92% para a soja, 87% para o milho e 94% para o algodão, o que rendeu aos produtores um lucro acumulado no período de R$ 35,8 bilhões, associado principalmente à redução de gastos e ao aumento de produtividade proporcionados pelos transgênicos.

Considerando-se os benefícios dos transgênicos para a economia brasileira como um todo – incluindo na conta, por exemplo, efeitos indiretos como o aumento no comércio de máquinas e insumos agrícolas, impulsionado pela adoção da tecnologia no campo -, o ganho coletivo é ainda maior: R$ 45,3 bilhões.

“Os ganhos com a tecnologia extrapolam a fazenda e acabam beneficiando toda a economia”, diz a coordenadora do estudo e sócio-analista da Agroconsult, Débora Simões.

Outro benefício é a redução no uso de defensivos agrícolas, que é uma das principais vantagens estratégicas da tecnologia. Conforme o estudo, o uso de sementes geneticamente modificadas evitou que 839 mil toneladas de herbicidas e inseticidas fossem aplicadas sobre as lavouras brasileiras dessas três culturas nos últimos 20 anos.

Quase todos os transgênicos aprovados até agora para uso agrícola no Brasil (76 produtos no total) são plantas geneticamente modificadas para serem resistentes a herbicidas e/ou insetos. O objetivo é facilitar o manejo e melhorar o controle de pragas nas lavouras, o que acaba beneficiando também a produtividade – ainda que os genes propriamente ditos não confiram nenhuma vantagem genética nesse sentido.

Conforme o estudo, os transgênicos foram responsáveis por um incremento de 55,4 milhões de toneladas na produção brasileira de grãos desde 1998. “O produtor não vai pagar mais por uma tecnologia que não lhe traz benefício”, diz Adriana Brondani, presidente do CIB (Conselho de Informações sobre Biotecnologia), entidade que encomendou o estudo.

Os agricultores pagam royalties às empresas para usar as sementes transgênicas, mas os ganhos obtidos com a tecnologia acabam compensando o investimento, segundo a pesquisa.

Com a soja transgênica, em vez de vários herbicidas (cada um deles específico para um tipo de erva daninha), os agricultores passaram a usar apenas o glifosato (que mata todas as plantas, menos a soja transgênica), aplicado sobre toda a lavoura, antes e depois do plantio.

Além da facilidade, isso permitiu a implementação da técnica de plantio direto (quando as sementes são plantadas diretamente sob a palha que resta da safra anterior, sem necessidade de arar ou gradear o solo), o que também reduziu os problemas de erosão e emissão de gases-estufa.

“Antes, para cada uma tonelada de soja produzida a gente perdia 20 toneladas de solo por ano. Era um desastre; estávamos caminhando para um deserto”, conta Rebello. “Agora, não. Esse casamento da biotecnologia com o plantio direto foi extraordinário.”

Insegurança

Entidades que já questionavam a segurança dos transgênicos na década de 1990 continuam céticas com relação à tecnologia. “É tudo ainda muito obscuro”, diz a nutricionista Ana Paula Bortoletto, pesquisadora de alimentos no Idec (Instituto de Defesa do Consumidor), em São Paulo. “Há muitos interesses comerciais se sobrepondo aos reais fatores de segurança.”

Rubens Nodari, pesquisador da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), diz que o uso de agrotóxicos aumentou no País nos últimos 20 anos e que os transgênicos reduziram a diversidade genética de plantas no campo, acentuando um modelo de produção baseado em monoculturas de larga escala: “Isso aumenta a vulnerabilidade das lavouras”.

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