Segunda-feira, 28 de setembro de 2026
Por Redação O Sul | 29 de junho de 2021
Não havia passado nem a metade de um dia após o desabamento da torre sul do complexo Champlain Towers quando começaram as especulações sobre o que havia causado o colapso repentino de um edifício relativamente moderno. Charles Burkett, o prefeito de Surfside — município costeiro no condado de Miami-Dade, onde ocorreu a tragédia — disse o que muitos pensavam: “Supõe-se que essas coisas não acontecem nos Estados Unidos”.
De acordo com especialistas entrevistados pelo GDA e pela imprensa local, a causa pode ter sido uma combinação trágica de mudanças no terreno, construções inadequadas na costa e leis inapropriadas para lidar com os efeitos da mudança climática.
“Isso poderia ter sido evitado”, disse a arquiteta venezuelana Mariana Rodríguez, que já assessorou algumas associações de condomínios, que são formadas pelos proprietários para administrar o prédio. “Os regulamentos criados para evitar algo assim foram aprovados há mais de 30 anos, quando nem se pensava que teríamos uma aceleração tão drástica da elevação do nível do mar e da intensidade e frequência dos furacões.”
Cidade em guerra
A imagem de Miami é a de uma cidade que vive uma festa constante. Não é falsa, mas não poderia ser mais incompleta. Miami e todos os municípios próximos travam uma guerra constante contra a natureza. É uma das características históricas de uma área criada graças à teimosia de um grupo de homens que queria fazer sua própria conquista no Sul da península da Flórida.
Ao contrário daqueles que foram para o Oeste contagiados pela corrida do ouro, aqueles que vieram para Miami em vez de escavar tiveram que destruir os manguezais protetores e, depois, preencher o espaço. Muito do que agora é o território costeiro da cidade estava sob o mar ou era pântano.
Embora os visitantes não percebam, a natureza é um inimigo que não desiste. Entre 1950 e 2015, as autoridades da Flórida gastaram US$ 1,3 bilhão (R$ 6,4 bilhões) “cuidando” das praias, ou seja, comprando areia para substituir a que as tempestades tiram todos os anos. Não é barato e é necessário tirar o dinheiro de algum lugar.
No final dos anos 1960, Surfside foi forçada a suspender novas licenças de construção enquanto modernizava seu deteriorado sistema de esgoto. De acordo com o jornal Miami Herald, em 1979 a empresa que construiu as Champlain Towers contribuiu publicamente com US$ 200 mil (R$ 985 mil) para o gabinete do prefeito para financiar metade do projeto, para que fosse iniciado e concluído. Na verdade, foi o primeiro prédio de seis andares a ser inaugurado na área.
“Isso foi antes do furacão Andrew [em 1992], que devastou boa parte da cidade. Depois disso, houve mudanças importantes nas leis e nos códigos de construção”, lembrou Rodríguez. “Não alteraram o regulamento de 40 anos, o que foi uma pena, mas ninguém imaginou o que estava por vir”, frisou a arquiteta, referindo-se à lei de 1975 do município, que exige que edifícios com mais de três pisos sejam recertificados como “seguros” ao chegar a quatro décadas de existência.
Entre 1993 e 2019, o nível do mar no Sul da Flórida subiu 12,7 centímetros e pode chegar a mais 15 centímetros até 2030, alertou um estudo sobre os efeitos das mudanças climáticas no Sudeste da Flórida, produzido pelas autoridades ambientais dos condados vizinhos de Miami-Dade, Broward, Monroe e Palm Beach.
O Corpo de Engenheiros do Exército propôs a construção em Miami Beach de uma parede costeira de seis metros, a um custo de US$ 6 bilhões (R$ 29 bilhões). A situação é tão grave que, em 2060, foi alertado que 40% de Miami poderia estar submersa.
Da mesma forma, o Escritório de Sistemas Costeiros e Praias do Departamento de Proteção Ambiental da Flórida publicou um relatório em 2019 afirmando que toda a área ao longo da costa atlântica estava “criticamente erodida”, o que torna “imperativo” rever a situação das construções na praia e as leis para o futuro.
Como outras construções da época que ficavam em frente à praia, o Champlain Towers foi construído em terreno preenchido. Os planos de construção indicam que a técnica utilizada era típica da época, uma base de concreto artificial enraizada na rocha calcária.
Tempestade perfeita
Alguns políticos rejeitaram a possibilidade de que o desastre em Surfside tenha sido devido ao aquecimento global, alegando que, se assim fosse, haveria mais edifícios com problemas. Infelizmente, a torre sul do Champlain Towers parecia ser particularmente vulnerável às consequências do clima devido a problemas estruturais.
Um estudo da Universidade Internacional da Flórida indica que as torres afundaram dois milímetros por ano entre 1993 e 1999, uma taxa mais alta do que o resto dos imóveis próximos.
“Não sabemos por que isso aconteceu, mas podemos detectá-lo via satélite”, disse Shimon Wdowinski, um dos pesquisadores. “Não acho que tenha sido o motivo do colapso, mas pode ter contribuído.”
Além disso, o prédio apresentava grandes degradações, com frequentes inundações no estacionamento, descoloração e rachaduras. Os problemas levaram a diretoria do condomínio a contratar a empresa Morabito Consultores em 2018. Em seu relatório, a empresa alertava que havia descoberto “fissuras de diferentes graus de profundidade nas colunas, vigas e paredes de concreto” da garagem subterrânea.
O documento também mencionou “danos significativos na laje de concreto estrutural” da base em que a piscina estava. A impermeabilização das áreas próximas ao mar fazia com que elas precisassem ser “totalmente removidas e substituídas”.
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