Quinta-feira, 22 de janeiro de 2026
Por Edson Bündchen | 22 de janeiro de 2026
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.
O debate sobre a dívida pública no Brasil costuma oscilar entre dois extremos igualmente problemáticos: o alarmismo permanente e a análise excessivamente simplista. Em momentos de incerteza, a razão dívida/PIB frequentemente é tratada como um termômetro isolado da solvência do Estado, como se seu movimento dependesse de uma única variável, quase sempre o déficit fiscal, e como se qualquer aumento representasse, automaticamente, uma crise iminente. A macroeconomia ensina que essa leitura é equivocada.
A relação dívida/PIB é, antes de tudo, uma variável de natureza dinâmica. Ela resulta da interação entre três forças centrais: o resultado fiscal primário, a taxa de juros real e o crescimento do PIB. Nenhuma delas atua de forma isolada. Ao contrário, formam um sistema interdependente, no qual decisões de política econômica afetam expectativas, comportamento dos agentes e, por consequência, as próprias variáveis que se pretende controlar.
É verdade que juros reais positivos e déficits fiscais pressionam a dívida para cima. Quando o custo real da dívida supera o crescimento da economia, o Estado precisa gerar superávits primários cada vez maiores apenas para estabilizar a razão dívida/PIB. Esse é um ponto bem conhecido e frequentemente explorado nos discursos mais alarmistas. O que raramente aparece com a mesma ênfase é o outro lado da equação: o papel decisivo do crescimento econômico.
O crescimento do PIB real reduz a razão dívida/PIB não por mágica, mas porque amplia a base de arrecadação, melhora o resultado fiscal de forma endógena e dilui o peso do estoque da dívida em relação à renda nacional. Economias que crescem de forma sustentada conseguem conviver com níveis de endividamento elevados sem que isso represente, necessariamente, perda de controle fiscal. A história econômica recente oferece inúmeros exemplos disso, inclusive entre países avançados.
O problema das análises simplistas é ignorar que as políticas adotadas para “corrigir” a dívida também afetam o crescimento e os juros. Ajustes fiscais abruptos, focados exclusivamente no curto prazo, podem comprimir a atividade econômica, reduzir receitas e gerar exatamente o efeito contrário ao desejado: uma trajetória mais desfavorável da dívida/PIB. Da mesma forma, juros excessivamente elevados, ainda que justificados por preocupações inflacionárias ou fiscais, tendem a desestimular o investimento e enfraquecer o crescimento futuro.
Outro ponto frequentemente negligenciado é o papel das expectativas. A sustentabilidade da dívida não depende apenas de números atuais, mas da percepção dos agentes sobre a capacidade do Estado de crescer, arrecadar e coordenar suas políticas ao longo do tempo. Credibilidade não se constrói apenas com cortes de gastos, mas com uma estratégia coerente que combine responsabilidade fiscal, política monetária consistente e agenda de crescimento da produtividade.
Nada disso significa minimizar a importância do equilíbrio fiscal. Pelo contrário. Significa colocá-lo em seu devido lugar dentro de um quadro macroeconômico mais amplo. Sustentabilidade da dívida não é sinônimo de austeridade permanente, assim como déficits não são, por definição, sinais de irresponsabilidade. Tudo depende do contexto, da qualidade do gasto público, do ambiente de juros e, sobretudo, do impacto das políticas sobre o crescimento econômico.
Se o debate público quiser avançar, precisa abandonar o uso da dívida como instrumento de medo ou retórica política. A questão central não é apenas “quanto” o Estado deve, mas “como” a economia cresce, “a que custo” se financia e “qual” estratégia permite alinhar juros, resultado fiscal e expansão do produto ao longo do tempo.
Fugir do alarmismo não é negar os riscos. É reconhecer que a dívida pública é um fenômeno sistêmico e que respostas simplistas, embora politicamente sedutoras, costumam produzir resultados econômicos frustrantes. Em macroeconomia, olhar o todo não é um luxo teórico, é uma necessidade prática.
(Instagram: @edsonbundchen)
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
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