Terça-feira, 07 de Julho de 2020

Porto Alegre

Mundo “Divorciados”, o Reino Unido e a União Euopeia discutem a relação em clima quente

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Primeiro-ministro Boris Johnson tem ameçado com antecipação do prazo para tratativas. (Foto: Reprodução)

Vivendo oficialmente “em camas separadas” desde o dia 31 de janeiro, o Reino Unido e UE (União Europeia) começaram a discutir nessa segunda-feira o futuro das relações entre ambos após o divórcio. E a julgar pelo tom das declarações feitas ao longo dos últimos dias, os dois ex-parceiros prometem não facilitar a vida um do outro.

Essa foi a primeira reunião de uma série de encontros mensais, em que britânicos e europeus precisam decidir os termos de todos os seus intercâmbios, sob risco de voltar à estaca zero depois de 47 anos de união. A lista tem 13 áreas, cada uma delas com vários itens, cada item com várias novas regras a definir, em assuntos como produtos, serviços, pessoas, informações, segurança e defesa e mais.

Chegar a um acordo em todos esses campos até o dia 31 de dezembro, como previsto, é tido por técnicos e diplomatas como impraticável, e os europeus balançam esse prazo como uma espada sobre a cabeça dos britânicos, para pressioná-los a aceitar suas condições ou pedir um adiamento.

Mas o primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson, dobrou a aposta. Ele já prometia não prorrogar prazos e na semana passada passou a falar em uma saída em junho, caso as conversas não avancem.

Por enquanto, como ocorre em negociações – ainda mais se ela envolve 513 milhões de pessoas e PIBs (Produtos Internos Brutos) somados de 15,9 trilhões de euros (cerca de R$ 79,5 trilhões) – os dois lados esticam a corda ao máximo e evitam até mesmo falar a mesma língua.

Os britânicos proíbem que seus negociadores usem o termo “acordo ambicioso”, senha da União Europeia para rejeitar conversas aos pedaços – nas palavras de um representante europeu, “não gostamos de acordos-salame; preferimos os do tipo ravióli, refeição completa num prato só”.

Da mesma forma, a palavra “mandato”, jargão da burocracia da UE para o documento-base da negociação, foi substituído pelo Reino Unido por “abordagem” (“approach”). Mestre na comunicação, Boris trocou “no deal” ou o “hard brexit” (separações sem acordo) por “um acordo do tipo australiano” – a Austrália não tem tratado de livre comércio com a União Europeia.

Das mais problemáticas é a expressão “level playing field”, abreviada como “LPF”, patamar mínimo de discussão. Na prática, significa que a União Europeia só aceita acordo amplo para bens e serviços se o Reino Unido adotar suas regras trabalhistas, ambientais, fitossanitárias e etc.

Nada mais indigesto para Boris, que fez a campanha do Brexit prometendo retomar o controle de suas regulações. “LPF” aparece 20 vezes no mandato europeu, contra apenas uma na abordagem britânica. No vocabulário do Reino Unido, ela vira “garantias antidistorções”.

Provocações

As partes também trocam provocações sobre quem perde mais sem um acordo. A União Europeia é o principal parceiro comercial do Reino Unido, responsável por cerca de 45% das exportações britânicas em 2018 e 53% de tudo o que os ex-parceiros compram (os números variam com critérios e taxas de câmbio).

Em um dos setores mais importantes da economia britânica, o de serviços, o Reino Unido obtém 7,2% de sua receita de exportação com vendas à UE (o fluxo inverso representa só 1,1% das vendas europeias).

A indústria britânica, principalmente a mais avançada, depende de fornecedores e clientes europeus, e um impasse pode elevar muito seus custos. Laboratórios farmacêuticos, agronegócio e indústria química também serão prejudicados se não houver entendimento sobre as regras de qualidade e segurança.

Já a União Europeia tem o setor de segurança e defesa como prioridade, e nessa área a colaboração do Reino Unido é crucial. O saldo é que há impacto para as duas economias, muito entrelaçadas nas cadeias de produção, fluxos financeiros e de pessoas (vivem no Reino Unido 3 milhões de cidadãos da UE; 1 milhão de britânicos tem domicílio na UE). Mas considerações políticas também complicam a DR.

Boris vendeu a seu público interno a promessa de recuperar as rédeas do país, mas precisa evitar a perda de empregos e de crescimento econômico. Para isso, pode até se render às exigências europeias, mas só depois de embalar o resultado como prova de soberania.

A União Europeia mantém um difícil equilíbrio entre 27 países com características e interesses díspares, quando não antagônicos. Neste ano, as divergências estão mais acirradas, com a discussão de quanto dinheiro o bloco terá nos próximos sete anos e como vai reparti-lo.

Se os governantes da UE precisam mostrar a seus membros que o benefício da união é maior que os custos de se submeter a suas regras e burocracias, aliviar a vida de quem acabou de se desligar é uma não opção. Entenda o que está em jogo.

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