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Acontece Domingo Clássico Petrobras abre com Orquestra da ULBRA

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A temporada 2026 prevê nove concertos ao longo do ano, sempre aos domingos, com repertório que transita entre os clássicos de tradição europeia e o repertório brasileiro.

Foto: Gisele Flores
A temporada 2026 prevê nove concertos ao longo do ano, sempre aos domingos, com repertório que transita entre os clássicos de tradição europeia e o repertório brasileiro. (Foto: Gisele Flores)

 

A abertura da temporada 2026 do Domingo Clássico Petrobras, realizada no último domingo (12), em Porto Alegre, foi além de um concerto inaugural. Ela expõe um dos raros casos de permanência cultural estruturada no Brasil: a Orquestra de Câmara da ULBRA, que chega a três décadas de atividade contínua sustentada por universidade, patrocínio privado e política pública de incentivo.

Em um cenário histórico de descontinuidade de projetos culturais, a longevidade da série se impõe como exceção e também como método. O maestro Tiago Flores resumiu essa lógica ao destacar a trajetória do projeto: “Esse é o Domingo Clássico, que este ano passou a se chamar Domingo Clássico Petrobras. A gente tem muito orgulho porque ele faz parte da cena cultural rio-grandense há 24 anos de forma ininterrupta”.

A constância, neste caso, não é apenas administrativa — é pedagógica. Ao longo de mais de duas décadas, o projeto construiu algo que a música de concerto no Brasil raramente consegue sustentar: público recorrente. “Mais do que concertos, a gente construiu uma relação com o público. Tem pessoas que acompanham a orquestra há anos. Isso é raro na música clássica no Brasil”, afirma Flores.

A temporada 2026 prevê nove concertos distribuídos ao longo do ano, sempre aos domingos, com repertório que atravessa Mozart, Bach, Grieg e Camargo Guarnieri. A curadoria reforça uma estratégia clara: combinar repertório universal com identidade brasileira, ampliando a escuta sem simplificar o conteúdo.

“Nosso trabalho não é só executar bem. É formar escuta. É fazer com que a pessoa volte no mês seguinte querendo ouvir mais”, diz o maestro, ao definir o núcleo do projeto não como performance, mas como formação continuada.

A Orquestra de Câmara da ULBRA, criada em 1996, consolidou-se como uma das formações mais estáveis do país no segmento de música de concerto, realizando cerca de 30 apresentações por ano e alcançando um público estimado em 20 mil pessoas por temporada. Essa permanência, no entanto, depende de uma engenharia institucional específica.

O modelo do Domingo Clássico Petrobras é sustentado pela Lei Rouanet, com patrocínio da Petrobras e realização da ULBRA. Trata-se de um sistema em que parte do imposto devido por empresas e pessoas físicas é direcionado a projetos culturais aprovados pelo Ministério da Cultura. Na prática, o mecanismo transforma tributação em investimento cultural de longo prazo.

Flores é direto ao apontar a importância dessa estrutura: “Cultura não se faz com evento isolado. Se faz com sequência”. A frase sintetiza um dos principais dilemas do setor cultural brasileiro: a dificuldade de transformar iniciativas pontuais em políticas contínuas.

A estrutura da orquestra também reflete essa lógica de adaptação permanente. O grupo varia de formações menores, com cerca de 18 músicos de cordas, até cerca de 30 integrantes quando o repertório exige sopros e obras sinfônicas. “O repertório é que define a orquestra”, explica Flores, ao destacar a flexibilidade como parte do processo artístico.

Mais do que uma série de concertos, o Domingo Clássico opera como um sistema de formação de público em escala regional. Sua importância não está apenas na execução musical, mas na criação de um hábito cultural contínuo — algo raro em um país onde a fruição da música erudita ainda é concentrada e episódica.

Ao completar três décadas, a Orquestra da ULBRA deixa de ser apenas um grupo artístico e passa a ocupar outro lugar: o de instituição cultural estável, capaz de sustentar repertório, público e continuidade. Nesse sentido, o que se celebra na abertura da temporada não é apenas o início de um calendário, mas a confirmação de um modelo.

No fim, o Domingo Clássico Petrobras revela uma ideia simples e difícil de sustentar: cultura não é evento. É permanência construída no tempo. (Por Gisele Flores – gisele@pampa.com.br)

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