Terça-feira, 26 de maio de 2026
Por Redação O Sul | 21 de dezembro de 2017
“Eu quero falar do Brasil, quero falar de coisas boas, a gente precisa de uma nova narrativa, um outro País”, afirma o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Luís Roberto Barroso ao receber a reportagem da BBC Brasil no seu gabinete, nesta semana. “Eu falo das coisas que você quer falar, tá bom assim? Mas você vai me deixar falar que a gente precisa imaginar o futuro”, propõe, diante da insistência da reportagem em abordar as controvérsias do presente.
Trato feito, Barroso respondeu a todas as perguntas, em uma hora e meia de entrevista. Mesmo um pouco resistente, fala sobre o que possivelmente será a questão mais polêmica das eleições de 2018 – a possibilidade ou não do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva disputar a Presidência da República.
O petista, hoje líder nas pesquisas, corre o risco de ser barrado pela Lei da Ficha Limpa caso o Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4) confirme a condenação do juiz Sergio Moro, que concluiu que ele recebeu um apartamento tríplex no Guarujá (SP) em troca da promoção de interesses da empreiteira OAS junto à Petrobras.
A defesa de Lula nega e diz que seu cliente não está sendo julgado com isenção – um dos indícios disso, segundo aliados do petista, é o fato do processo no TRF-4 ter andado com mais celeridade que os outros casos da Lava-Jato. Em resposta aos advogados, o presidente da corte, Carlos Eduardo Thompson Flores Lenz, negou isso – 1.326 apelações foram julgadas pelo tribunal em um tempo inferior apenas neste ano, afirmou.
Segundo Barroso, o melhor é que a indefinição sobre a candidatura se esclareça, e que se defina o mais cedo possível quais vão ser as regras e quem vai poder ser candidato. Se Lula for condenado pelo TRF-4, ainda poderá tentar concorrer com uma decisão do STF ou do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), onde o ministro assume uma vaga efetiva em fevereiro. “Portanto, acho que, em nome da segurança jurídica e da estabilidade do jogo democrático, é melhor que se defina o mais cedo possível quais vão ser as regras, quem vai poder ser candidato. Eu não acho que isso seja problema, nem indício de perseguição, acho que é um momento de prudência”, avaliou.
Ao responder sobre a baixa confiança que a população brasileira tem hoje no Supremo, apontada por pesquisa da FGV (Fundação Getulio Vargas), Barroso fez críticas à decisão da corte de autorizar que o Senado derrubasse o afastamento do senador Aécio Neves (PSDB-MG), o que chamou de “semissuicídio institucional”.
“Há 650 mil presos no sistema penitenciário brasileiro. Poucas pessoas estão presas com tanta prova como havia nesse caso”, resume.
Ao final da entrevista, o ministro expõe suas propostas para o futuro do Brasil, listando o que acredita ser essencial para o país construir sua “nova narrativa”. A gama de propostas é ampla e lembra uma plataforma de campanha presidencial.
Questionado sobre ter o desejo de um dia se candidatar, responde “zero”. “Se eu me deixasse seduzir por essa possibilidade, isso retiraria autoridade em tudo que eu faço e do que eu falo, porque aí, a partir de agora, todo mundo poderia imaginar que eu tenha algum interesse oculto.”
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