Segunda-feira, 25 de maio de 2026
Por Redação O Sul | 23 de maio de 2026
Embora a revelação das conversas entre o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Master, hoje preso, tenha afetado negativamente a campanha à Presidência do filho de Jair Bolsonaro (PL), ela não será suficiente para impedi-lo de chegar, competitivo, ao segundo turno das eleições de outubro.
A leitura do cenário atual pelo filósofo e cientista político Marcos Nobre, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), porém, não vai na direção de que a polarização calcifica os polos antagônicos de forma a blindá-los de crises como essa.
Ao contrário, seu argumento é que, na estrutura da divisão social que o Brasil vive hoje, Flávio lidera a coalizão que busca interromper políticas de redistribuição de renda iniciadas nos anos 1990.
Essa coalizão, conformada por uma parte da direita tradicional e da direita radical, tem angariado votos desde, pelo menos, a eleição de 2018 — e reúne muitas condições para seguir disputando o pleito desse ano, na avaliação de Nobre.
Para ele, embora a relação de proximidade de Flávio com Vorcaro prejudique sua imagem de alguma forma, não abala sua campanha.
“Além disso, o timing da crise foi bom para o Flávio, porque dará tempo de ele se recuperar. Tem muito tempo até outubro”, diz Nobre em entrevista à BBC News Brasil.
Flávio conta, para isso, com um novo ator da política brasileira, na visão de Nobre: um partido digital. Este é eixo central de O partido digital bolsonarista, livro que ele lançará em junho, ao lado da cientista política Ana Cláudia Chaves, pelo Centro para Imaginação Crítica (CCI) do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap).
Do outro lado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) é apontado por Nobre como o líder de uma coalizão distributivista, que tem o desafio de não ter mais como acomodar o conflito pela distribuição da riqueza como fazia antes: por meio de um acordo entre as classes sociais. Foi por isso que, no atual mandato, ele partiu ao confronto com o Congresso, aponta o filósofo.
Para Nobre, é por isso que a tentativa de criar uma “terceira via” para o pleito de outubro é uma “ilusão”. “Ela é como um estacionamento em que as pessoas ficam ali esperando se vão para um lado ou para o outro. É uma ideia fantasiosa”, afirma. Confira abaixo alguns dos principais trechos da entrevista.
– A descoberta de uma relação de proximidade entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro, do Banco Master, vai impactar na campanha dele? “Não. Estruturalmente, fica tudo do mesmo jeito.”
– Por quê? “O Flávio Bolsonaro já sai com uma base de 25% a 30% (do eleitorado). Não há outro candidato de oposição ao governo Lula com essa condição ou que possa alcançar algo semelhante a isso. Vamos avaliar se terá alguma perda e, se tiver, de quanto ela será, mas a pergunta é: quem consegue ir para um segundo turno com o Lula? Hoje, a resposta é: só o Flávio.”
– E para a campanha do presidente Lula? Qual é o impacto? “Se o adversário comete um erro dessa magnitude, é de se comemorar, mas ele e a campanha dele sabem que não podem contar com um erro do rival para ser eleito. É preciso ter uma estratégia vitoriosa de qualquer forma. Além disso, o timing da crise foi bom para o Flávio, porque dará o tempo dele se recuperar. Tem muito tempo até outubro. Na verdade, ficou como aprendizado sobre como ele pode lidar com essas situações desfavoráveis. Vai aprender a coordenar melhor sua comunicação de campanha. (O vazamento das conversas com Vorcaro) até é ruim, mas não é um desastre.” As informações são da BBC News.
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