Quinta-feira, 11 de junho de 2026
Por Redação O Sul | 14 de agosto de 2023
Há uma passagem, depois de vários capítulos de “Parachute Women: Marianne Faithfull, Marsha Hunt, Bianca Jagger, Anita Pallenberg, and the Women Behind the Rolling Stones” (em tradução livre, “Mulheres Paraquedistas: Marianne Faithfull, Marsha Hunt, Bianca Jagger, Anita Pallenberg e as Mulheres por Trás dos Rolling Stones”), de Elizabeth Winder, que justifica silenciosamente a existência do livro. Na introdução biográfica sobre Marsha Hunt, aspirante a artista R&B – antes de sua vida ser redirecionada ao dar à luz o primeiro filho de Mick Jagger –, a história de vida de Hunt contrasta com as seções anteriores.
Enquanto os capítulos anteriores oferecem relatos em camadas e fofocas da época, o capítulo sobre Hunt não traz citações de apoio, nem perspectivas refratadas pelas lentes do LSD. Em vez disso, Winder apresenta um relato de fonte única a partir das memórias de Hunt. E ressalta o triste fato de que, diante dos inúmeros livros que documentam todas as facetas dos Rolling Stones,
“Parachute Women” é o primeiro a narrar as experiências coletivas das companheiras e esposas que moldaram os músicos. Winder destaca como a vasta influência dessas mulheres sobre os Stones foi praticamente escondida na sombra dos mitos monolíticos da banda.
Parachute Women é um passo para conceder a essas mulheres seu lugar de direito na cultura musical – principalmente Anita Pallenberg, que até agora tinha sido relegada a um ícone de groupie.
A bonne vivante e artista germano-italiana foi parceira romântica de Brian Jones e Keith Richards e confidente criativa e amante de Mick Jagger (ele a chamou de “sexto integrante da banda”). Mas, como argumenta Winder, foi o estilo inatacável de Pallenberg, o hedonismo laissez-faire e o ar mundano que imbuíram os rapazes de uma aspereza cool.
Ela foi uma mentora extraordinária, apresentando-os a tudo o que os definiria, desde ocultismo e boás de penas até anéis de caveira e drogas pesadas – a imagem da banda passou a refletir seu glamour contracultural. Pallenberg era tão vital para Richards em particular que, sempre que lhe ofereciam um papel no cinema, Richards propunha cobrir seu salário e implorava para que ela ficasse ao seu lado. Ela sempre recusou sua oferta.
Marianne Faithfull, amiga de Pallenberg, reivindica uma participação significativa na criação de Mick Jagger. Quando a então popstar adolescente Faithfull foi morar com o vocalista em 1966, a dieta intelectual dele era ficção popular de supermercado. Faithfull lhe deu a devida educação sobre poetas beat, Bob Dylan, história, misticismo, aventura sexual, filmes e moda da nouvelle vague francesa, além de o levar ao balé com frequência. A insistência dela para que ele lesse O Mestre e Margarida (de Mikhail Bulgakov) rendeu a canção Sympathy for the Devil.
Como documenta Parachute Women, a proximidade com Jagger e Richards teve um preço alto. Depois que Faithfull foi pega na apreensão de drogas de Mick e Keith em fevereiro de 1967, vestida com nada além de um tapete de pele de carneiro, os paparazzi representaram a jovem de 20 anos como uma rosa inglesa profanada.
Na manhã seguinte, a manchete do Evening Standard dizia: Stones presos: garota nua. Os empresários dos Stones aproveitaram e usaram a corrupção da imagem angelical de Faithfull como testemunho da influência do rock dos Stones, prova de que eles eram bad boys – mesmo que isso tenha criado danos colaterais pessoais e profissionais significativos para Faithfull, destruindo sua carreira musical. Winder escreve: “No final, as forças que demonizaram Marianne e exaltaram Mick eram uma coisa só. Não era apenas pânico moral sobre ‘jovens degenerados’. Era a própria cultura do rock”.
Capítulo após capítulo, Winder mostra como essas quatro mulheres perseveraram diante da indignidade e do trauma. Os ataques violentos de Jones a Pallenberg, que não eram notados pelo resto da banda; a recusa de Jagger em aceitar a paternidade da criança que ele convenceu Hunt a ter e seu tratamento insensível a Faithfull após a perda de sua filha.
Winder tem profunda empatia por essas mulheres e deixa claro seu desprezo pelos homens da banda, mas ela não é uma biógrafa crítica: deixa o leitor fazer os próprios julgamentos (o que não é difícil).
O livro de memórias de Faithfull é a fonte primária para os capítulos sobre a vida da cantora e os tempos com Jagger, e sua obscenidade e frases afiadas (“Não há nada verdadeiramente mítico nem trágico no Mick”) entorpecem o resto de Parachute Women.
A história de Winder sobre Hunt, Pallenberg, Faithfull e Bianca Jagger é um alívio bem-vindo para as típicas hagiografias dos Stones, que lançam Mick e Keef como deuses que se fizeram por si mesmos e racionalizam os danos causados por eles como “é só rock-and-roll”, como diz a música. As informações são do jornal The Washington Post.
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