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Mundo Em livro, Barack Obama relata reza ao pé do Cristo e rumores de propina bilionária no governo Lula

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Obama e sua família aos pés do Cristo Redentor. (Foto: Pete Souza/The White House/Archive)

O ex-presidente americano Barack Obama está escreveu “Uma Terra Prometida”, primeiro volume de suas memórias presidenciais, lançado mundialmente nesta terça (17). Nas 764 páginas da publicação, o país aparece ora como um cenário, ora como um ator coadjuvante nas negociações internacionais pelas quais Obama conduz o leitor, em uma obra na qual também revela intimidades de sua vida em família.

O livro é lançado a pouco mais de dois meses da posse do democrata Joe Biden como o novo presidente americano, em sucessão ao republicano Donald Trump. Biden foi vice de Obama durante seus dois mandatos, e foi destacado pelo então presidente como seu principal emissário na América Latina.

Obama foi o último presidente americano a visitar o Brasil, entre 19 e 20 de março de 2011, no primeiro ano do governo de Dilma Rousseff.

A presença do ex-presidente Lula no livro é bem mais marcante que a de Dilma. Publicamente, Obama sempre tentou demonstrar apreço pelo brasileiro. Em 2009, em Londres, durante um almoço entre líderes do G-20 (grupo de países desenvolvidos e em desenvolvimento), Obama afirmou que Lula era “o cara” e que o então presidente brasileiro era o “político mais popular do mundo”. Lula estava em seu sétimo ano na presidência e sua taxa de popularidade estava acima dos 80%.

A descrição do americano no livro: “Ex-líder sindical grisalho e cativante, com uma passagem pela prisão por protestar contra o governo militar, e eleito em 2002, tinha iniciado uma série de reformas pragmáticas que fizeram as taxas de crescimento do Brasil dispararem, ampliando sua classe média e assegurando moradia e educação para milhões de cidadãos mais pobres. Constava também que tinha os escrúpulos de um chefão do Tammany Hall, e circulavam boatos de clientelismo governamental, negócios por baixo do pano e propinas na casa dos bilhões”.

Tammany Hall era o nome dado à maquina política democrata que dominou a cidade de Nova York por 200 anos, até meados do século passado, e cuja atuação virou sinônimo de corrupção, mas também de benevolência a imigrantes.

É de sua passagem pela favela da Cidade de Deus, na visita ao Brasil em 2011, que Obama tira uma das reflexões mais relevantes para o cenário doméstico americano atual.

Em 2020, o país foi tomado pelos maiores protestos por justiça racial registrados desde o movimento pelos direitos civis na década de 1960. O estopim do movimento foi a morte de George Floyd, um homem negro e desarmado que perdeu a vida asfixiado por um policial branco que se ajoelhou em seu pescoço durante uma abordagem policial. “Eu compreendia também que a presença no Brasil era importante, em especial para os brasileiros de ascendência africana, que representavam pouco mais da metade da população do país e, como os negros nos Estados Unidos, sofriam o mesmo tipo de pobreza e de racismo profundamente enraizado — ainda que com frequência negado”, afirma Obama.

As reflexões filosóficas de um líder político mundial se misturam às angústias típicas de um pai atarefado, que vê os filhos crescerem à certa distância. Obama relata que, no Brasil, sentiu aumentar “minha sensação — já bem frequente nos últimos tempos — de que minhas filhas vinham crescendo mais rápido do que eu esperava”.

Sobrevoando a cidade do Rio, Obama interrompe o folhear de revistas das filhas, que ouviam música em seus ipods, para mostrar o Cristo Redentor pela janela do helicóptero. Ele planejara levá-las a uma visita ao monumento, quase cancelada pela névoa no Corcovado. Obama tem a impressão de que as filhas parecem indiferentes ao passeio, mas subitamente as condições climáticas melhoram e ele ganha esse momento em família.

“Enquanto galgávamos uma série de degraus, com os pescoços esticados para trás na tentativa de apreciar a vista, senti a mão de Sasha agarrar meu braço. Malia passou o braço em volta da minha cintura. ‘Temos que rezar ou alguma coisa assim?’, perguntou Sasha.”

“Por que não?”, respondi. Então nos juntamos, as cabeças curvadas em silêncio, e eu soube que ao menos uma de minhas preces naquela noite havia sido atendida”.

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