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Mundo Em sua primeira entrevista em mais de um mês, Vladimir Putin acusa Ocidente de usar a Ucrânia para conter a Rússia

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Presidente russo, Vladimir Putin (D), e premier húngaro, Viktor Órban (E), durante entrevista coletiva em Moscou. (Foto: Pavel Baranov)

Em sua primeira entrevista coletiva desde dezembro, o presidente russo, Vladimir Putin, declarou que a Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) ignorou as propostas feitas por Moscou para a crise na Ucrânia, e acusou os EUA de “usarem” Kiev para “conter a Federação Russa”.

Ao lado do premier húngaro, Viktor Órban, que visita Moscou, Putin sugeriu que a eventual entrada ucraniana na aliança militar liderada pelos Estados Unidos poderia levar a uma guerra na Crimeia, atacou a política de “portas abertas” da organização e afirmou que Washington, na realidade, “não se importa” com o destino da Ucrânia.

“A tarefa mais importante deles [EUA] é conter o desenvolvimento da Rússia”, afirmou Putin. “A Ucrânia é apenas um instrumento para chegar a esse objetivo. Isso pode ser feito de várias formas, como nos levando a um conflito armado e forçando seus aliados na Europa a adotarem duras sanções contra nós, como as que estão sendo discutidas hoje nos EUA.”

Putin centrou seus ataques nas respostas recebidas por Moscou às chamadas “demandas de segurança” feitas por ele em dezembro, respostas que foram entregues pelos EUA e a Otan na semana passada. Os dois pontos centrais para a Rússia são o veto à entrada da Ucrânia na Otan, além da retirada de contingentes da aliança dos países que se tornaram membros depois de 1997 – pontos considerados “inaceitáveis” para o Ocidente.

“Gostaria de observar que estamos analisando cuidadosamente as respostas recebidas pelos EUA e pela Otan em 26 de janeiro, mas já está claro que as principais preocupações da Rússia não foram levadas em consideração”, afirmou o presidente russo.

Putin ainda mencionou uma possível guerra em torno da Crimeia caso a Ucrânia seja admitida na Otan – a península que abriga a sede da frota russa no Mar Negro foi anexada por Moscou em 2014, após um referendo não reconhecido internacionalmente, e o retorno do território ao comando de Kiev se encontra entre as doutrinas de segurança do governo ucraniano.

“A adesão da Ucrânia à Otan criará ameaças militares à Crimeia”, afirmou o presidente russo.

Para ele, o Ocidente não considera que um eventual conflito em torno da península não será apenas entre as forças de Moscou e de Kiev, mas sim entre a Rússia e toda a aliança militar, uma referência à política de “um ataque contra um é um ataque contra todos”, presente no Artigo 5º do Tratado do Atlântico Norte.

Ao lado de Putin na entrevista coletiva estava Viktor Órban, um líder próximo ao Kremlin, mas cujo país também integra a União Europeia e a própria Otan. Na reunião entre ambos hoje, Orbán anunciou acordos bilionários para o fornecimento de gás natural e vacinas pela Rússia, e chegou a criticar a política de sanções como ferramenta de pressão econômica – ao mesmo tempo, defendeu a diplomacia na atual crise.

“A distância entre o que a Otan quer e o que a Rússia quer ainda é enorme, mas acredito ser possível reduzir essa diferença, e talvez possamos chegar a um acordo que possa garantir a paz e a segurança”, declarou o premier húngaro, que é abertamente contra o envio de militares da aliança para território ucraniano. “Disse ao presidente Putin que a União Europeia está unida, e que não há um líder sequer da União Europeia que queira um conflito com a Rússia.”

Antes da entrevista coletiva em Moscou, os chefes da diplomacia da Rússia, Sergei Lavrov, e dos EUA, Antony Blinken, conversaram por telefone, e se mostraram dispostos a discutir “preocupações mútuas de segurança”, mas sem fazer promessas imediatas.

Segundo o Departamento de Estado, Blinken usou a conversa para reiterar posições já conhecidas dos EUA, como a defesa da integridade territorial da Ucrânia e a política de “portas abertas” da Otan, mas ele questionou a Rússia sobre a permanência das tropas na fronteira ucraniana se, como alega Moscou, não existe a intenção de um ataque.

“Se o presidente Putin não quer iniciar uma guerra ou levar adiante uma mudança de regime, o secretário [Blinken] disse ao chanceler Lavrov que, então, este é o momento de retirar as tropas e o armamento pesado, e iniciar uma discussão que possa melhorar a segurança coletiva europeia”, afirmou à AFP um funcionário do Departamento de Estado, sem se identificar.

O Kremlin, por sua vez, esclareceu que uma carta enviada na segunda-feira a Washington e à Otan não era uma resposta russa aos comentários ocidentais às suas demandas de segurança, como havia dito a diplomacia americana, mas sim perguntas sobre a ideia da “indivisibilidade da segurança” no chamado “espaço euroatlântico”.

O termo, que tem sido usado pelo governo russo na crise, se refere ao Protocolo de Istambul, de 1999, firmado pelos 57 países da Organização para Segurança e Cooperação na Europa (OSCE), que incluem a Rússia e os EUA.

O documento afirma que cada país é “livre para escolher seus arranjos de segurança, incluindo tratados de aliança”, o que tem sido usado pelos EUA para recusar o veto ao ingresso da Ucrânia na Otan. Ao mesmo, tempo, como ressalta a Rússia, ele diz que “cada Estado participante tem igual direito à segurança” e que “os Estados não fortalecerão sua segurança à custa da segurança de outros Estados”. As informações são do jornal O Globo e de agências internacionais de notícias.

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