Sexta-feira, 22 de maio de 2026
Por Amilcar Macedo | 22 de maio de 2026
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.
Em uma época marcada pela velocidade das relações, pela fragilidade dos vínculos humanos e pela crescente dificuldade de convivência com limites, disciplina e frustração, talvez poucas instituições ainda consigam oferecer algo cada vez mais raro: formação de caráter associada a responsabilidade coletiva. É nesse contexto que o CPOR (Centro de Preparação de Oficiais da Reserva) revela uma importância que ultrapassa, há muito, os muros dos quartéis.
O sociólogo Zygmunt Bauman descreveu a contemporaneidade como uma “modernidade líquida”: tempos em que quase tudo se tornou passageiro, instável e descartável. Relações, valores, compromissos e até identidades parecem dissolver-se com facilidade. Vive-se a era do imediatismo, da exposição permanente e da dificuldade crescente de suportar contrariedades. Lideranças, muitas vezes, confundem popularidade com autoridade e visibilidade com exemplo.
O CPOR, de certa forma, caminha na direção oposta desse fenômeno.
Ali, jovens oriundos das mais diferentes origens sociais aprendem cedo que liderança não nasce do grito, da imposição ou da vaidade. Nasce do exemplo. O oficial em formação compreende rapidamente que ninguém conduz um grupo apenas pela força da hierarquia formal. A verdadeira autoridade é construída pela confiança, pela coerência e pela capacidade de assumir responsabilidades, sobretudo nos momentos difíceis.
E talvez resida exatamente aí uma das maiores contribuições silenciosas do CPOR para o Brasil.
Embora concebido para preparar oficiais da reserva do Exército Brasileiro, o CPOR sempre foi, também, uma escola de formação humana e cívica. Muitos daqueles jovens não seguirão carreira militar. Tornar-se-ão magistrados, médicos, advogados, empresários, professores, engenheiros, servidores públicos ou líderes comunitários. Contudo, levarão consigo algo que os acompanhará pela vida inteira: a compreensão de que liberdade e responsabilidade caminham juntas.
Em tempos de individualismo crescente, o ambiente militar ensina uma lição simples, mas poderosa: ninguém vence sozinho.
A rotina do CPOR ensina pontualidade, camaradagem, autocontrole, disciplina emocional, capacidade de trabalhar sob pressão e espírito coletivo. Mas ensina também algo ainda mais importante: a perceber que toda liderança legítima pressupõe serviço. O bom comandante não é aquele que exige privilégios para si, mas o que assume primeiro os encargos e dá exemplo aos demais.
Essa talvez seja uma das diferenças fundamentais entre autoridade e autoritarismo, distinção cada vez mais necessária em sociedades polarizadas e marcadas por discursos radicais. O CPOR não forma apenas homens aptos ao comando; forma cidadãos capazes de compreender limites, deveres e responsabilidades institucionais.
E isso possui enorme relevância para além da esfera militar.
Em uma sociedade frequentemente marcada pela crise das lideranças públicas e privadas, pela intolerância ao contraditório e pela erosão do senso de comunidade, experiências formativas como a do CPOR adquirem valor ainda maior. Ali se aprende que disciplina não é humilhação; é preparação. Que hierarquia não significa submissão cega; significa organização funcional orientada ao interesse coletivo. E que liderança não é um espaço de privilégios, mas de responsabilidade acrescida.
Há, ainda, um aspecto humano frequentemente negligenciado. O CPOR aproxima pessoas diferentes em torno de objetivos comuns. Jovens de distintas origens econômicas, culturais e regionais convivem sob as mesmas exigências, compartilham dificuldades, superam limites físicos e emocionais e aprendem a confiar uns nos outros. Em tempos de fragmentação social, essa experiência possui enorme valor civilizatório.
Talvez por isso tantos ex-alunos do CPOR, décadas depois, ainda recordem aquela experiência como uma das mais marcantes de suas vidas. Não apenas pelas instruções militares, pelos exercícios ou pela farda, mas porque ali aprenderam algo que transcende a formação castrense: a consciência de pertencimento, dever e compromisso com algo maior do que si mesmos.
Em uma sociedade líquida, marcada pela transitoriedade das convicções e pela superficialidade das relações, instituições capazes de formar caráter tornam-se cada vez mais necessárias.
E talvez o maior legado do CPOR não esteja apenas nos oficiais que preparou para servir ao Exército Brasileiro, mas nos cidadãos que ajudou a formar para servir ao próprio país.
* Amílcar Fagundes Freitas Macedo – gabinete-amilcar@tjmrs.jus.br
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.
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