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Mundo Entenda a teoria da conspiração pró-Trump que preocupa até o FBI

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"Estamos fazendo investigações muito sérias. Não estamos felizes com a China", disse Trump. (Foto: Reprodução)

Uma vereadora de uma cidade da Califórnia (EUA) subiu à tribuna e citou o QAnon, uma teoria da conspiração sobre os traidores do “Estado profundo” que tramam contra o presidente dos EUA, e no final encerrando as suas considerações ela disse: “Deus abençoe o Q”. Falando freneticamente trechos do QAnon sobre a exploração sexual de crianças, um homem jogou um pé de cabra contra uma histórica capela católica no Arizona, danificando o altar e conseguiu fugir. As informações são do jornal The New York Times.

E em um comício de Donald Trump na Flórida, as pessoas que se encontravam em frente ao local vestindo camisetas que ostentava um “Q” no peito pararam em uma barraca para ouvir estranhas histórias sobre democratas que torturariam secretamente e matariam crianças para extrair do seu sangue uma substância que garantiria longa vida.

O que começou online há mais de dois anos como uma teoria da conspiração que rapidamente atraiu milhares de seguidores, propagou-se desde então no mundo real. Hoje, o QAnon aparece em campanhas políticas, em processos criminais e no merchandising. No mês passado, centenas de entusiastas do QAnon reuniram-se em um parque em Tampa, na Flórida, para ouvir oradores; e na Grã-Bretanha, um partidário do presidente de Donald Trump e do líder do Brexit Nigel Farage plantou uma bandeira do “Q” no alto de um castelo da Cornualha.

Mais recentemente, fãs do QAnon compartilharam online teorias infundadas que relacionam o bilionário liberal George Soros aos problemas tecnológicos que prejudicaram as convenções democratas, e distribuíram “medicamentos” falsos e provavelmente perigosos contra o coronavírus.

Matthew Lusk, um republicano da Flórida que concorre a uma cadeira no Congresso e segue abertamente o QAnon, afirmou em um e-mail que o criador anônimo da teoria é um patriota que “fornece informações sobre coisas de que as notícias falsas não tratam senão para confundir”. Quanto aos elementos mais extremos da teoria, Lusk disse não saber ao certo se existe de fato um bando de pedófilos associado ao Estado profundo, mas: “Eu acredito que em Bruxelas, na Bélgica, há um grupo que come crianças abortadas”.

A teoria da conspiração saiu dos exaltados marasmos digitais e criou vida própria offline enquanto Trump promove continuamente conspirações infundadas com a finalidade de modificar as notícias a fim de adequá-las aos seus desejos. Em certos momentos, Trump elogiou e encorajou os seguidores do QAnon – fazendo circular em seus tuítes as mensagens da teoria; posou com um deles para fotografias no Salão Oval, e convidou outros para uma “reunião de cúpula da mídia social” na Casa Branca.

O QAnon surgiu em outubro de 2017, quando um usuário do 4chan começou a escrever postagens com o pseudônimo Q Clearance Patriot. Ele dizia ser um funcionário de alto escalão a par de informações ultra secretas do círculo íntimo de Trump. Dois anos e mais de 3,5 mil postagens depois, o Q, cuja identidade nunca foi descoberta, havia espalhado mundo afora uma história sobre conspirações, segundo a qual, entre outras coisas, Trump teria sido escolhido por altos representantes das forças armadas para concorrer à presidência e acabar com uma máfia global de pedófilos da cabala.

As mensagens anônimas foram transferidas para o 8chan, e agora estão no 8kun, um novo site criado pelo proprietário do 8Chan. Fãs do QAnon, fanáticos da conspiração, acreditaram anteriormente em outras teorias marginais, como a falsa afirmação de que os ataques terroristas do 11 de setembro foram um “trabalho interno”.

Mas muitos seguidores do QAnon são cidadãos americanos comuns que encontraram nas mensagens do QAnon uma fonte de energia partidária, a confirmação de suas suspeitas a respeito do poder de certas instituições ou a convicção de possuírem conhecimentos especiais. Nas salas de bate-papo online, grupos do Facebook e do Twitter, seguidores do QAnon, discutem mensagens ocultas e símbolos que acreditam estarem nas mensagens do Q.

Com a convicção fundamental de que o presidente está combatendo heroicamente bandidos calejados, o QAnon pode ser a mais recente manifestação da propaganda da conspiração inspirada por Trump. Desde o início, esteve ligado inexoravelmente às comunidades online do “Fazer a América grande outra vez”: o jornal The New York Times constatou no ano passado que cerca de 23 mil seguidores das mensagens de Trump no Twitter continham referências ao QAnon em seus perfis.

Mas o QAnon vem migrando persistentemente fora da internet para os comícios de campanha de Trump, em que é possível encontrar muitos partidários exibindo cartazes e outra parafernália do Q. Nos últimos meses, eles têm se queixado de que a polícia impede que as pessoas levem seu material de propaganda para os comícios e os organizadores da campanha disseram que em seus eventos permitem somente os cartazes aprovados e a mercadoria licenciada.

Uma preocupação maior dos pesquisadores que acompanham as teorias da conspiração é o potencial de violência de indivíduos instáveis que caem sob o seu domínio. Em seu boletim de informações que identifica o QAnon como uma ameaça potencial de terror interno, o FBI alertou que as redes sociais estão inspirando os seguidores a passarem para a ação.

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