Terça-feira, 29 de setembro de 2026
Por Redação O Sul | 15 de março de 2021
A reveladora entrevista do príncipe Harry e de Meghan Markle à apresentadora Oprah Winfrey provou-se ainda mais comprometedora para a Coroa do que se podia prever. A nova crise no Palácio de Buckingham expõe não apenas como questões raciais e de classe ainda estão entranhadas na aristocracia britânica, mas levanta dúvidas sobre como a monarquia vai lidar com as mudanças iminentes em seus quadros.
Na conversa de duas horas com a apresentadora americana, Harry e Meghan “carregaram um bombardeiro B-52, sobrevoaram o Palácio de Buckingham e descarregaram seu arsenal bem em cima”, como disse o canal britânico ITV. Em sua primeira entrevista após romper com a família real há um ano, o casal acusou a Coroa de racismo e de uma “campanha de difamação” tão hostil que levou Meghan a cogitar cometer suicídio.
A dupla tentou desvencilhar a rainha Elizabeth II, que completa 95 anos mês que vem, da instituição que ela representa: Harry falou com carinho sobre sua avó, enquanto Meghan afirmou que Elizabeth “sempre foi maravilhosa” com ela. Suas declarações, contudo, são devastadoras para a Coroa, vindas em um momento particularmente complicado para o seu futuro.
Há 68 anos como chefe de Estado, Elizabeth é a monarca mais longeva da História britânica e sua popularidade reflete-se na Coroa. Ancorando-se no tradicionalismo e mantendo-se distante do debate político, ela já atravessou 14 primeiros-ministros, conseguiu manter-se de pé enquanto o Império Britânico terminava de ruir e sobreviveu à crise provocada pelo divórcio do príncipe Charles, seu herdeiro, e a princesa Diana. A mudança no trono, todavia, é iminente, assim como os questionamentos sobre a relevância da monarquia e de seus privilégios em pleno século XXI.
Segundo uma pesquisa realizada pelo YouGov no mês passado, há uma relação direta entre a geração dos entrevistados e a pertinência da entrevista de Meghan e Harry para Oprah: entre aqueles com idades entre 18 e 24 anos, 52% afirmaram que a conversa com a apresentadora americana foi apropriada. Entre aqueles com 65 anos ou mais, apenas 11% deram seu aval.
A já questionada capacidade de Charles de comandar a difícil transição ficou ainda mais explícita na entrevista. Harry deixou claro que a relação com seu pai não passa por seu melhor momento: segundo o príncipe, Charles chegou a parar de atender suas ligações após o casal anunciar que se afastaria de suas obrigações reais em 2020. Ele disse ainda se sentir “realmente decepcionado” com a falta de apoio de seu pai.
Historicamente, problemas familiares que transbordam do perímetro do Palácio de Buckingham são alguns dos piores pesadelos da monarquia britânica. Em 1936, o país se viu em uma crise constitucional após o rei Edward VIII abdicar do trono para poder se casar com Wallis Simpson, uma divorciada americana. Nos anos 1990, o conturbado divórcio de Charles e Diana em meio a traições fez a popularidade da Coroa despencar.
Um alvo dos tabloides britânicos desde que começou a namorar Charles, Diana não teve paz após o divórcio. Em 1995, deu uma célebre entrevista para a BBC na qual disse que o Palácio via sua popularidade como uma ameaça e que havia três pessoas no seu casamento – uma referência ao affair de Charles com Camilla Parker Bowles, com quem ele se casou posteriormente.
Até hoje comentada, a entrevista rendeu conteúdo para tabloides por meses. Dois anos depois, Diana morreu em um acidente de carro em Paris quando era perseguida por paparazzi. Em sua entrevista a Oprah, Harry disse que seu maior medo era que “a história se repetisse”. Em várias ocasiões, o príncipe já disse que culpa a cultura midiática britânica pela morte de sua mãe.
Se as mulheres que ingressam na família real britânica são particularmente acossadas pelos tabloides, com Meghan havia novos fatores em jogo. O fato de a ex-atriz ser negra, divorciada e americana foi suficiente para que esses veículos elevassem ao máximo a potência das manchetes que tentavam transformá-la em vilã.
No ambiente familiar, afirmou o casal, o clima também era hostil. Segundo Meghan, um integrante da família real teria levantado, em uma conversa com Harry, preocupações sobre “o quão escura” a pele do filho do casal seria. O príncipe não disse quem fez a afirmação, mas Winfrey posteriormente negou que tenha sido a rainha Elizabeth II ou seu marido, o príncipe Philip, de 99 anos, que está internado desde fevereiro. Em novos trechos da entrevista divulgados nesta segunda-feira – a conversa durou mais de três horas, mas foi editada para a TV – Harry disse que o racismo “teve um grande papel” na decisão do casal de deixar o país.
A repercussão na imprensa foi imediata. Segundo a BBC, a entrevista explicitou “indivíduos insensíveis presos dentro de uma instituição” tão perdida quanto eles e as “terríveis pressões dentro do palácio”. Nos tabloides, por sua vez, há conteúdo para uma década de notícias, como destacou o Financial Times. As informações são do jornal O Globo e de agências internacionais de notícias.
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