Quinta-feira, 11 de junho de 2026
Por Redação O Sul | 13 de março de 2016
Cada vez mais meninas que acabaram de deixar a infância se juntam ao EI (Estado Islâmico) ao serem atraídas pela propaganda do grupo extremista. Autoridades afirmam que a representação feminina entre menores de idade chega a 55%. E a mudança do fenômeno que costumava ser quase exclusivamente masculino levanta uma difícil pergunta: o que leva essas jovens a se unir a uma organização tão radical – ou, pelo menos, a sonhar em fazê-lo?
O sociólogo Farhad Khosrokhavar – diretor de estudos da Escola de Altos Estudos de Ciências Sociais, em Paris, na França – conseguiu algumas respostas ao entrevistar várias dessas jovens e estudar as suas trajetórias.
“Primeiramente, estamos diante da primeira geração de meninas que podem estar fascinadas pela violência da mesma maneira que os meninos. Antes, a violência era um fenômeno quase exclusivamente masculino. Essa nova geração mudou de perspectiva”, diz o pesquisador. “Falei com meninas que me dizem: ‘Meu ideal é Kouachi’ [os irmãos Kouachi, autores do massacre da Charlie Hebdo]. Não se trata de ser sua mulher ou sua namorada: seu sonho é ser o próprio Kouachi.”
O envolvimento de meninas em fenômenos de radicalização é também condicionado a questões particulares dessa nova geração feminina, diz o sociólogo. “Nessas meninas, há um culto novo do heroísmo e da virilidade. O jovem jihadista se converte em um ideal masculino para essas adolescentes, que pensam que podem confiar nele. Sua seriedade se mede através da vontade de se expor ao perigo de morte. Trata-se de um pós-feminismo antifeminista: o culto da virilidade, ou seja, querem um homem que tenha virtudes masculinas tradicionais.”
“Punk-rock”.
A adolescência é a idade da empolgação, dos ideais, dos entusiasmos mais ou menos racionais. E os recrutadores do EI – especialistas em matéria de propaganda e de engajamento nas redes sociais – compreenderam o fenômeno perfeitamente. Por isso, insistem na dimensão supostamente humanitária das meninas que se unem a eles.
A pesquisadora britânica Erin Marie Saltman, que estuda o papel das mulheres na insurgência, acredita que o gancho da ação humanitária funciona muito com as adolescentes. Para ela, seria falso considerar essas jovens apenas como mulheres de jihadistas. “Muitas estão verdadeiramente convencidas de que participam de um esforço humanitário. Pensam que o regime sírio e as forças internacionais perseguem os muçulmanos e, unindo-se ao califado, acreditam participar da criação de um Estado que dará um futuro e segurança aos muçulmanos de todo o mundo.”
Mas a adolescência também é a idade da rebelião. E, no caso dessas jovens, essa fase pode se tornar uma marca muito mais extrema do que se esperaria para meninas desta idade, explica Khosrokhavar.
“Há uma vontade evidente de transgressão. Elas sabem que a sociedade detesta o jihadismo, e essa é a melhor maneira de romper com a sociedade. O EI se dirige a essas meninas com vontade de superar a adolescência. E, quando elas vão embora, vivem um ato de afirmação. Esse é um rito para alcançar a idade adulta de maneira simbólica pela violência e pela transgressão extrema.”
Já Erin destaca que, para as novas gerações, nem sempre o EI é um movimento conservador, machista e opressor: “É seu ‘punk-rock’. É se erguer contra o sistema. Para alguns adolescentes, o EI é um movimento clandestino e isso os atrai”. (AG)
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