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Rio Grande do Sul Estelionato com eutanásia de animais: ex-secretária municipal e mais oito pessoas são denunciadas à Justiça gaúcha

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Esquema é alvo de apuração desde setembro do ano passado. (Foto: Divulgação/MPRS)

Menos de uma semana após indiciamento pela Polícia Civil, uma ex-secretária municipal de Canoas (Região Metropolitana de Porto Alegre) e mais oito pessoas foram denunciadas à Justiça pelo Ministério Público do Rio Grande do Sul (MPRS), por envolvimento em estelionato e eutanásia ilegal de cães e gatos de estimação, dentre outros crimes. As acusações remontam a 2025.

O esquema teria sido praticado em duas instituições do município e também em Porto Alegre. Conforme a Promotoria encarregada do caso, a então titular da pasta de Bem-Estar Animal não possui formação técnica em Veterinária mas utilizou seu poder para determinar a execução de “pets” sem que houvesse o devido respaldo por exames laboratoriais comprobatórios de problemas de saúde capazes de justificar o procedimento.

Já os demais oito supostos envolvidos incluem uma policial civil que acessou e repassou à ex-secretária dados restritos que favoreciam a prática criminosa. O MPRS também denunciou uma associação, fundada e mantida pela então secretária, por participação em inciativas envolvendo arrecadação de dinheiro para supostos tratamentos de animais – os valores acabavam revertidos a ela e seu marido.

O MPRS pede a aplicação de sanções previstas na legislação ambiental e penal, como a proibição de guarda de animais, perda de bens relacionados aos crimes e perda de cargo e função públicos. Para o promotor Leonardo Giardin de Souza, responsável pela ação, não é possível oferecer acordo para evitar o processo penal porque os crimes envolvem violência:

Investigação

Usuários do serviço e agentes da Secretaria foram os primeiros a alertar a Polícia sobre os fatos. As investigações que culminaram na primeira etapa da operação, deflagrada em 4 de setembro de 2025, incluíram mandados de busca e apreensão na sede do órgão, na residência da investigada, em um sítio onde está registrado o “Instituto Nacional de Proteção Animal” e na casa da veterinária.

No dia 15 de junho deste ano, o grupo foi alvo da segunda fase da ofensiva, com o cumprimento de três ordens de prisão preventiva e 12 de busca e apreensão. Além de telefones celulares, computadores e outras provas, os agentes recolheram um cão sem as patas dianteiras e debilitado, utilizado para pedidos de ajuda financeira nas redes sociais.

De acordo com o apurado, a “protetora” atuava desde 2020, com 549 vaquinhas realizadas, sendo que o Instituto já recebeu de quase 15 mil pessoas o montante de quase R$ 673 mil em contribuições. A Polícia Civil gaúcha continua a investigação, a fim de levantar aspectos como o número de animais vitimados pelo que os agentes têm chamado de “eutanásia financeira”.

A delegada Luciane Bertoletti também falou de pormenores do esquema: “Após análise do material apreendido, a constatação inicial foi alarmante. O número de eutanásias estava muito acima do esperado para o perfil dos animais recolhidos e em relação aos anos anteriores. Agora buscamos registros de microchip de todos os animais que sumiram para, quem sabe, identificar quantos foram sacrificados”.

Caso emblemático

Em um dos casos apurados, a veterinária comunicou a possibilidade de que um cão estava com sinomose e perguntou se seria feito o teste antes de qualquer decisão. A resposta atribuída à ex-secretária foi de autorização para prosseguir com a eutanásia, sem confirmação diagnóstica prévia da doença. Os investigadores apontam que isso contrasta com a prática clínica recomendada, já que a cinomose depende de exame específico para confirmação.

Na mesma data, a investigada teria divulgado pedido de apoio financeiro nas redes sociais para custear o suposto tratamento do mesmo animal, enquanto autorizava nos bastidores a eliminação do “pet”.

“A investigada, que nas redes sociais ostentava fotos de animais com deficiência que ‘adotava’ e ‘salvava’, valia-se dessa fachada para legitimar suas captações”, reforça a Polícia Civil. “A exoneração do cargo de secretária não desmobilizou o esquema, que continuou a operar sob a guarda de sua ‘associação’ no sítio.”

Diretor da 2ª Delegacia de Polícia Regional Metropolitana de Canoas, o Delegado Cristiano Reschke enfatiza a gravidade da exploração da confiança pública e a crueldade do esquema:

“Desvendamos um cenário de crueldade extrema e manipulação perversa da solidariedade pública. A investigada não apenas decidia pela morte deliberada de animais que poderiam ser salvos, como usava o sofrimento dessas criaturas como isca emocional para um esquema de estelionato. É estarrecedor constatar que, enquanto o público doava recursos acreditando financiar a cura e o bem-estar, nos bastidores, a ordem era a eliminação sumária para maximizar o lucro”.

(Marcello Campos)

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