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Colunistas Falência Hídrica: o colapso invisível que ameaça a humanidade

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(Foto: Reprodução)

Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.

Quando a Organização das Nações Unidas anunciou recentemente que o planeta entrou em estado de “falência hídrica”, muitos se perguntaram o que exatamente significa esse termo. A metáfora é clara: assim como uma empresa que gasta mais do que arrecada, a humanidade está consumindo mais água doce do que a natureza consegue repor. Lagos, rios e aquíferos estão sendo esgotados em ritmo acelerado, e em diversas regiões já não há recuperação possível. O anúncio vem da ONU porque é a instituição que reúne cientistas, pesquisadores e governos em torno de diagnósticos globais, com credibilidade e integridade suficientes para que o mundo leve a sério o alerta. Não se trata de uma previsão alarmista, mas de uma constatação baseada em dados: cerca de 4 bilhões de pessoas vivem sob escassez severa de água por pelo menos um mês por ano, e em muitas áreas a falta deixou de ser ocasional para se tornar permanente.

A seriedade do anúncio está no fato de que não se trata apenas de uma crise passageira, mas de um colapso estrutural. A ONU, por meio de seu Instituto de Água, Meio Ambiente e Saúde, afirma que já não cabe falar em “estresse hídrico” ou “crise hídrica”: o mundo entrou em uma era de falência. Isso significa que os sistemas hídricos essenciais — aquíferos subterrâneos, bacias hidrográficas e reservatórios — estão falidos, incapazes de se regenerar naturalmente. A integridade do relatório é reforçada pela transparência dos dados e pela participação de especialistas independentes, que apontam não apenas os sintomas, mas também as causas: uso excessivo da água, crescimento urbano desordenado, poluição, desmatamento e, sobretudo, os efeitos das mudanças climáticas.

Os eventos climáticos extremos são a face mais visível dessa falência. Secas prolongadas, tempestades de areia, incêndios florestais e colapsos agrícolas estão se tornando rotina em várias partes do mundo. No Brasil, por exemplo, já se observam reservatórios secos e comunidades isoladas pela falta de acesso à água. Em países do Oriente Médio, a escassez hídrica alimenta tensões sociais e políticas. Na África, regiões inteiras vivem sob escassez permanente, o que ameaça a segurança alimentar e impulsiona migrações forçadas. O risco para a humanidade é múltiplo: sem água não há produção de alimentos, não há energia elétrica em sistemas dependentes de hidrelétricas, não há saúde pública capaz de conter doenças ligadas à falta de saneamento.

As causas desse fenômeno climático são conhecidas, mas pouco enfrentadas. O aquecimento global altera os ciclos de chuva e evaporação, tornando secas mais intensas e enchentes mais destrutivas. A agricultura industrial consome volumes gigantescos de água, muitas vezes em regiões áridas, sem considerar a capacidade de reposição natural. O desmatamento reduz a umidade do solo e compromete os rios voadores que regulam o clima. A poluição contamina os mananciais, tornando inviável o uso da água disponível. É um conjunto de fatores que, somados, empurram o planeta para o colapso hídrico.

O alerta da ONU deve ser entendido como um chamado à ação. Não é apenas um relatório técnico, mas uma mensagem política e ética: estamos vivendo além da nossa capacidade hídrica, e isso exige mudanças profundas. É preciso repensar a forma como produzimos alimentos, como planejamos nossas cidades e como tratamos nossos ecossistemas. A falência hídrica não é um problema distante, é uma realidade que já afeta bilhões de pessoas e que pode se agravar rapidamente se nada for feito.

Refletir sobre esse cenário é inevitável. A água doce, que sempre foi vista como recurso abundante, tornou-se o bem mais escasso e estratégico da humanidade. Se não aprendermos a respeitar seus limites, estaremos condenados a viver em um planeta onde conflitos por água serão tão comuns quanto disputas por petróleo foram no século passado. A falência hídrica não é uma metáfora, é um diagnóstico. E como todo diagnóstico sério, exige tratamento imediato. O futuro da humanidade depende da nossa capacidade de ouvir esse alerta e agir agora, antes que a sede se torne o símbolo definitivo da nossa falência civilizatória.

*Renato Zimmermann é desenvolvedor de negócios sustentáveis e ativista da transição energética
Contato: rena.zimm@gmail.com

Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
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