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Saúde Falta de testes, brigas políticas e quarentenas falhas: uma sucessão de erros levou o Brasil a superar 50 mil mortos por coronavírus

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Victoria e Nova Gales do Sul, com 13,9 milhões de pessoas, terão vigilância militar na divisa. (Foto: Divulgação)

Fronteiras abertas, falta de testes, apagão de dados públicos, quarentenas descumpridas e desavenças entre autoridades. Uma sucessão de erros levou o Brasil a superar a marca de 50 mil óbitos pela Covid-19. A doença já havia deixado um rastro de tragédias bem antes de aterrissar aqui segundo estudo da Unicamp, o país foi o último entre as 15 maiores nações do mundo acometidas pelo coronavírus.

Não faltaram exemplos internacionais sobre como evitar ou, ao menos, amenizar a multiplicação de óbitos no Brasil. Hoje estável em diversas regiões do país, o índice de mortes pode, de acordo com especialistas, voltar a subir nas próximas semanas, com a abertura de serviços em grandes centros urbanos, como Rio e São Paulo.

A Argentina fechou suas fronteiras e registrou menos de mil mortes. O Brasil é um país muito maior e esta operação seria mais complicada, mas poderia ter sido feita, ao menos, nos aeroportos de Rio e São Paulo, com centros de controle para testagem de passageiros”, diz o pesquisador Alessandro Farias, coordenador da força-tarefa da Unicamp contra a Covid-19.

A escassez de testes impediu um panorama efetivo do alastramento da doença no país. “O Brasil optou por concentrar os exames em pacientes suspeitos ou em estado grave. Assim, temos uma taxa de testes positivos superior a 30%. Em muitos países, este índice é de 5%, porque há testes para examinar mais pessoas”, explica. “A subnotificação aqui é fenomenal. Estima-se que a taxa de óbitos seja pelo menos cinco vezes maior do que a notificada oficialmente.”

Farias adverte que mesmo os casos bem-sucedidos de quarentena podem sofrer revezes, o que implicaria em restringir novamente a circulação de pessoas: “Muitos governos sucumbiram ao lobby econômico e à pressão da população e permitiram a reabertura dos serviços antes da hora. O aumento do número de infecções pode pressionar novamente a necessidade de leitos de UTI. O ideal é que menos de 80% deles estejam desocupados, e esta não é a realidade em diversos locais do país”, alerta.

Farias ressalta que a comunidade científica ainda conhece muito pouco sobre o Sars-CoV-2. Entre suas características preocupantes está o alto tempo em que permanece no organismo até 21 dias e o fato de que não precisa passar por muitas mudanças até atingir o sistema imunológico. É, como define, um vírus “muito bem-sucedido”. A ocorrência de uma “segunda onda” é provável sua duração e gravidade, desconhecidas.

Doutor em Epidemiologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Paulo Petry sublinha a alta taxa de contágio do Sars-CoV-2. No Brasil, cada infectado chegou a transmitir o vírus para até três pessoas, segundo estudo do Imperial College de Londres.

O distanciamento é fundamental para o achatamento da curva epidemiológica. Mas enfrentamos problemas, como a aglomeração nas periferias”, lamenta.

O “descontrole governamental”, segundo Petry, também impulsionou a curva de óbitos. É referência a declarações como a do presidente Jair Bolsonaro, que comparou a Covid-19 a uma “gripezinha”, e protagonizou embates com prefeitos, governadores e os próprios ministros.

Desavenças com Bolsonaro levaram às saídas de Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich do comando do Ministério da Saúde. A pasta é agora ocupada por um interino, Eduardo Pazuello, militar que não tem experiência na área. Uma das marcas do início de sua gestão foi o “apagão” de informações do portal do governo sobre o coronavírus. Pesquisadores protestaram contra o sumiço de dados sobre o histórico da pandemia no país.

Houve uma tentativa de apagar os dados, fundamentais para gerar informações científicas e políticas públicas”, explica Petry. “Estamos pagando com vidas o baixo investimento em pesquisas e o equipamento precário do SUS. Com investimento, dependeríamos menos do insumo e da tecnologia estrangeiras para atender os pacientes.”

O epidemiologista estima que, com o início do inverno, a taxa de mortalidade provocada por doenças respiratórias graves pode até quadruplicar no Sul do país, uma prova de que a pandemia ainda está longe de um fim. As informações são do jornal O Globo.

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