Sexta-feira, 06 de novembro de 2026
Por Redação O Sul | 14 de janeiro de 2020
Aliviada, dizendo-se “exultante” ao fim da cinematográfica e bem-sucedida fuga do marido, Carole Ghosn faz, de Beirute, um balanço pessoal: o executivo Carlos Ghosn “não fugiu da justiça, fugiu da injustiça japonesa”. E daqui para a frente, acrescentou nesta entrevista – a primeira que deu, por telefone, após o episódio –, “muita gente que for convidada para empregos no Japão vai pensar duas vezes antes de aceitar o convite, pois o que aconteceu com o Carlos poderá acontecer para qualquer um”. As informações são da coluna de Sonia Racy, do jornal O Estado de S. Paulo.
A fuga do brasileiro e ex-presidente da Renault-Nissan, no dia 31, deixou também conotações políticas. Pois há dois nomes circulando no Líbano que poderiam ser candidatos a liderar a saída do profundo desastre econômico que se instalou naquele país: o do próprio Carlos Ghosn e o do neto do ex-presidente Emile Edde, Carlos Edde. Segundo Carole, seu marido se dispõe a ajudar o país, mas não entrará na política.
Carlos Edde diz o mesmo. “Posso ajudar de fora”, contou ele, frisando que abandonou em definitivo a liderança da Frente Nacional Católica e que hoje só se dedica aos próprios afazeres. Ao falar da injustiça contra Carlos, Carole acrescenta: “Infelizmente o Japão tem esse lado negro, assim como a União Soviética tinha e a Coreia do Norte ainda tem”. Para ela, pessoalmente, a experiência pode ser definida como “nove meses de total pesadelo”. A seguir, os principais trechos da entrevista.
– 1) Acha que Carlos vai manter os planos de entrar para a política? “Não, acho que Carlos não vai se envolver com política. Ele está disposto a dar conselhos e consultorias, usando sua experiência, para quem quiser no campo da economia”, diz Carole.
– 2) Como se sente fora do Japão? “Exultante. É um milagre, achei que não seria possível. Estava em Nova York, viajei de volta a Tóquio para passar o Natal e só consegui falar com o Carlos no dia 24 de dezembro, durante uma hora – e ainda assim na presença de advogado. Foi meu presente de Natal e foi também a última vez que falei com ele. Por noves meses, só conversamos duas vezes. A Justiça japonesa sequer me deixou passar o dia de Natal com ele na nossa casa.”
– 3) Qual a alegação do Judiciário do Japão para impedi-la de vê-lo? “Disseram que ele poderia me induzir a manipular provas, influenciar as testemunhas. Mas os filhos dele podiam vê-lo, as irmãs, os primos, e na opinião dos japoneses eu era a única que poderia manipular as provas se estivesse perto dele? Por que isso? Seria eu o único parente ou pessoa no mundo mal-intencionada? Absurdo.”
– 4) Qual a explicação que deram ao seu advogado? “Não deram. Me disseram que até para os parâmetros japoneses essa barreira era completamente inconstitucional.”
– 5) Como você saiu do Japão? “Testemunhei por quatro horas, no dia 11 de abril de 2019. A Justiça disse que eu poderia ir embora, que não havia nada contra a minha pessoa. Carlos estava detido e os advogados me pediram para testemunhar – e que, se eu não fizesse isso, o Carlos continuaria na prisão. Fui com esperança e a certeza que meu marido é inocente. Mesmo assim, não o soltaram.”
– 6) Onde você foi viver quando saiu do Japão? “Fui viver em Nova York. Fui a Beirute no verão, depois voltei para NY e retornei a Beirute para passar o Natal com meus filhos.”
– 7) Como você está planejando sua vida depois de tudo o que aconteceu? Como vê o futuro? “Estamos planejando ficar em Beirute. Tenho mandato de prisão emitido pelo Japão. Mas não há extradição entre Japão e Líbano.”
– 8) O governo do Japão bloqueou contas bancárias de vocês lá? “Ainda não sabemos, mas ouvimos falar que a primeira coisa que vão fazer é isso, bloquear a conta dele. Eles são cruéis, ele está se sentindo muito humilhado.”
– 9) Você sentiu animosidade no Japão? “Não das pessoas, mas quando os procuradores foram em casa prendê-lo nos trataram ambos de forma muito humilhante. O sistema deles é feito para quebrar pessoas. E deixar uma pessoa quebrada não é fazer justiça. Só queria dizer mais uma coisa. Quando as pessoas dizem que Carlos fugiu, ele não fugiu da justiça, ele fugiu da injustiça japonesa. Infelizmente o Japão tem esse lado negro, assim como a União Soviética tinha e a Coreia do Norte tem. Mas as pessoas não sabem nada a respeito. Agora, com a história do Carlos, as pessoas pensarão duas vezes antes de aceitar emprego no Japão, pois o que aconteceu com Carlos pode acontecer a qualquer um.”
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