Terça-feira, 17 de março de 2026
Por Redação O Sul | 5 de setembro de 2018
Em sinal de luto, frequentadores estão depositando flores diante do Museu Nacional, no Rio de Janeiro, segundo relatos ao jornal Extra.
Muito emocionada, a moradora do Maracanã Tânia Duarte Freire, de 56 anos, interrompeu o passeio de bicicleta pela Quinta da Boa Vista, para depositar quatro buquês de flores diante da estátua de D. Pedro II, em frente ao Museu Nacional. Ela disse que essa foi a forma que encontrou para demonstrar luto e tristeza pelo incêndio que no domingo destruiu boa parte do prédio e o acervo da instituição.
“O museu é nossa História. Pegou fogo e algumas pessoas do poder vão dizer que as viúvas vêm chorar. Mas essas viúvas existem de verdade. Então vim trazer flores para tentar conquistar isso com mais cidadania e não com violência. E para dizer que a gente ama a História. Pode ser que para algumas pessoas não represente muita coisa, mas tem gente que valoriza. Eu leio muitos livros de História, eu conheço a História do Brasil. Isso para mim foi muito triste”, lamentou.
Ela disse ser frequentadora assídua do parque e do museu, onde esteve pela última vez durante a comemoração dos 200 anos, em junho. Tânia pediu autorização aos guardas municipais, que permitiram sua entrada no espaço isolado por grades. Outras pessoas têm prestado tributo ao museu destruído pelas chamas com flores colocadas aos pés do monumento ao imperador que criou a instalação, há dois séculos.
Além dos quatro buquês depositados por Tânia, havia pelo menos outros quatro buquês e um vaso com flores. Nas grades, que limitam o espaço até onde as pessoas podem chegar, foram colocados vários cartazes com mensagens de apoio e indignação.
Atração para curiosos
O museu praticamente em ruínas não deixa de atrair a atenção de curiosos e antigos frequentadores. Alguns interrompem a caminhada para uma selfie em frente ao prédio.
A advogada Cristiane Sodré Lima, de 48, antiga moradora de São Cristóvão que agora reside na Região dos Lagos, aproveitou a passagem pelo Rio, para ver o estado do museu, em companhia da mãe Iracema, de 60, e dos filhos Sofia Luz, de 8, e Paulo Sérgio, de 12. Ela também estava triste com o que aconteceu:
“Estudei o Pedro II e morei em São Cristóvão, onde ainda tenho casa, e sempre venho aqui. Sozinha e com as crianças. O sentimento é de tristeza. A gente tem fotos das visitas. A memória é que fica”, disse.
Pós-graduação do Museu Nacional deve retomar aulas em uma semana
Casa de seis programas de pós-graduação strictu senso, o Museu Nacional está se reorganizando para que as aulas possam ser retomadas em uma semana. O diretor administrativo do museu, Wagner Martins, explicou que espaços estão sendo “adensados” e compartilhados para que os cursos possam retomar as atividades.
“Para as pós-graduações, a volta aos trabalhos já está garantida”, informou Wagner, acrescentando que em uma semana as aulas podem voltar a ser ministradas “de maneira normal”.
Segundo Wagner, os cursos como Antropologia Social, que usavam salas de aula no prédio incendiado, serão realocados para o Horto Botânico, área anexa de 40 mil metros quadrados que guarda parte dos itens do museu, como a biblioteca de exemplares raros e o acervo de vertebrados.
“Os outros departamentos, que não sofreram com o incêndio, já estão acolhendo os professores. Já estão compartilhando sala, mesa, computador, para que possam retomar seus trabalhos”.
A vice-diretora do Museu Nacional, Cristiana Serejo, disse que os programas mais afetados pelo incêndio são Antropologia Social, Linguística e Línguas Indígenas e Arqueologia.
O programa de Botânica foi menos afetado, já que seu acervo ficava no horto. No anexo Alipio Ribeiro, também se salvaram o laboratório de preparação de fósseis, todos os servidores da informática e coleções de invertebrados como crustáceos, corais, esponjas, estrelas do mar, moscas e mosquitos.
Já os aracnídeos estavam no palácio, e provavelmente foram perdidos, segundo a vice-diretora. Laboratórios de crustáceos e equinodermos também estavam na área atingida pelo incêndio.
O programa de pós-graduação em Antropologia Social do Museu Nacional tem nota máxima (7) na Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) e completa 50 anos este ano. A biblioteca do programa, com obras contemporâneas, era a maior da América do Sul e foi destruída no incêndio.
A professora Renata Menezes disse que perdeu todo o seu material de pesquisa sobre o carnaval, reunido desde 1982. “A gente está devastado, mas já está se recompondo. O nosso programa é um programa [nota] sete da Capes e vamos manter a qualidade”.
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