Sexta-feira, 29 de maio de 2026
Por Redação O Sul | 17 de outubro de 2018
Há uma crise iminente diante do crescente apetite por carne no mundo. Será que um frango que cisca em uma fazenda em São Francisco pode ser a solução? Em 1931, Winston Churchill previu que um dia a raça humana “escaparia do absurdo de criar uma galinha inteira para comer o peito ou a asa, produzindo essas partes separadamente”. Oitenta e sete anos depois, esse dia chegou, como descobrimos na Just, empresa de alimentos em São Francisco, nos EUA, onde provamos nuggets de frango fabricados a partir das células de uma pena de galinha.
O frango – que tinha gosto de frango – ainda estava vivo, supostamente ciscando em uma fazenda não muito longe do laboratório. Essa carne não deve ser confundida com os hambúrgueres vegetarianos à base de verduras e legumes e outros produtos substitutos de carne que estão ganhando popularidade nos supermercados.
Trata-se de carne real fabricada a partir de células animais. Elas são chamadas de diversas formas: carne sintética, in vitro, cultivada em laboratório ou até mesmo “limpa”. São necessários cerca de dois dias para produzir um nugget de frango em um pequeno biorreator, usando uma proteína para estimular as células a se multiplicarem, algum tipo de suporte para dar estrutura ao produto e um meio de cultura – ou desenvolvimento – para alimentar a carne conforme ela se desenvolve.
O resultado ainda não está disponível comercialmente em nenhum lugar do planeta, mas o presidente-executivo da Just, Josh Tetrick, diz que estará no cardápio em alguns restaurantes até o fim deste ano. “Nós fazemos coisas como ovos, sorvete ou manteiga de plantas e fazemos carne apenas a partir de carne. Você simplesmente não precisa matar o animal”, explica Tetrick.
Nós provamos e os resultados foram impressionantes. A pele era crocante e a carne, saborosa, embora a textura interna fosse um pouco mais macia do que a de um nugget do McDonald’s ou do KFC, por exemplo.
Tetrick e outros empresários que trabalham com “carne celular” dizem que querem impedir o abate de animais e proteger o meio ambiente da degradação da pecuária intensiva industrial. Eles afirmam estar resolvendo o problema de como alimentar a crescente população sem destruir o planeta, ressaltando que sua carne não é geneticamente modificada e não requer antibióticos para crescer.
A ONU (Organização das Nações Unidas) diz que a criação de animais para a alimentação humana é uma das principais causas do aquecimento global e da poluição do ar e da água. Mesmo que a indústria pecuária convencional se esforce para se tornar mais eficiente e sustentável, muitos duvidam que será capaz de acompanhar o crescente apetite global por proteína.
Abatemos 70 bilhões de animais por ano para alimentar sete bilhões de pessoas, destaca Uma Valeti, cardiologista que fundou a Memphis Meats, empresa de carnes fabricadas a partir de células, na Califórnia. Segundo ele, a demanda global por carne está dobrando, à medida que mais pessoas saem da pobreza. Nesse ritmo, acrescenta, a humanidade não conseguirá criar gado e frango suficientes para saciar o apetite de nove bilhões de pessoas até 2050. “Assim, podemos literalmente cultivar carne vermelha, aves ou frutos do mar diretamente dessas células animais”, diz Valeti.
Muitos americanos afirmam que estão comendo menos carne, mas dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos sugerem que o consumidor médio ainda vai ingerir mais de 100 quilos de carne vermelha e frango neste ano – cerca de 20 quilos a mais do que consumiam nos anos 1970.
O cientista holandês Mark Post é um dos pioneiros da agricultura celular – seu primeiro hambúrguer produzido em laboratório, em 2013, custou US$ 300 mil. Nenhuma empresa ampliou ainda a produção para servir comercialmente um hambúrguer feito a partir de células, mas Post estima que, se começasse a produzir seus hambúrgueres em massa, poderia reduzir o custo de produção para cerca de US$ 10 cada. “É claro que ainda é muito alto”, avalia.
Se a Just conseguir fabricar nuggets de frango suficientes para vender neste ano, é improvável que seja em um restaurante americano, pois o governo dos EUA ainda está decidindo como proceder.
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