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Saúde Gestores precisam ter um plano B para a variante Delta, diz virologista da Fiocruz

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Virologista alerta que é difícil prever o impacto do espalhamento da nova cepa no Brasil. (Foto: Reprodução)

A cientista que lidera o maior projeto de monitoramento de variantes do coronavírus no Brasil ainda não tem certeza sobre o impacto para o país do espalhamento da Delta, a linhagem mais temida do vírus. Se os governos esperarem por mais detalhes científicos para planejar uma resposta, porém, pode ser tarde demais para o país, diz ela.

“Os gestores têm de se preparar para o pior, esperando pelo melhor”, diz Marilda Siqueira, chefe do laboratório de vírus respiratórios da Fiocruz.

Em entrevista ao jornal O Globo, a cientista fala sobre como avalia a disseminação dessa variante no Brasil.

Como a senhora espera que a variante Delta se comporte no Brasil? Ela vai se espalhar mais do que as outras?

A gente não espera nada, porque a gente não faz previsão. A gente faz ciência. A gente observa, estuda e vê o que está acontecendo. O que está acontecendo agora é que essa variante já foi detectada em 465 casos no Brasil, reconhecidos pelo Ministério da Saúde. Ela está presente em muitos estados. Alguns, incluindo Rio e São Paulo, já têm transmissão comunitária.

Nesse momento, o que estamos fazendo é trabalhar junto com os estados para aumentar o número de sequências (de genomas de amostras do vírus) e verificar se essa tendência de aumento vai continuar ou não.

O que nós observamos é que, em outros países onde a Delta entrou, incluindo vários da Europa que têm dados consistentes e robustos, ela atualmente é a cepa dominante. Mas lá eles tinham outras variantes circulando.

1) O que é mais diferente no contexto brasileiro?

Nós aqui temos a variante p.1, ou Gama, que ainda é a predominante no país, e não sabemos qual vai ser o comportamento da Delta diante dessa outra.

Nós estamos vendo que aqui, no Rio de Janeiro, a Delta tem aumentado significativamente nos números de casos detectados nas últimas semanas. Mas para saber se esse cenário vai se repetir em outros estados ou se vai predominar sobre a p.1, que vem dominando o Brasil desde o início de janeiro, a gente ainda tem que observar.

2) Esse monitoramento é feito todo pela Fiocruz?

A gente tem dados robustos, mas não é só a Fiocruz. Outras redes também estão trabalhando nessa questão. Quem centraliza é o Ministério da Saúde. Todos os nossos relatórios e resultados são enviados ao mesmo tempo, no mesmo e-mail, para o ministério e para as secretarias estaduais e municipais de saúde dos estados de onde vêm as amostras.

3) Como o país deve se preparar para o caso de a variante se espalhar mais aqui?

Temos questões importantes para serem decididas, e uma delas é o comportamento da população. Não é momento, de jeito nenhum, de abandonar aquilo que tem sido solicitado desde o início da pandemia: o uso de máscaras, o distanciamento social etc.

Isso não pode acabar, quando estamos frente a uma variante que já demonstrou, em estudos, ter uma capacidade de disseminação muitas vezes aumentada em relação a outras.

Se ela tem uma capacidade maior de disseminação, podendo infectar um número maior de pessoas, nós temos que ter uma preparação para isso nas esferas de gestão federal, estadual e municipal. Os gestores precisam ter um plano B.

Quando nós enfrentamos uma possível tragédia, a gente tem que se planejar para o pior esperando o melhor. Então, os gestores precisam ter um planejamento, dependendo da estrutura, tamanho e população de cada cidade para o caso de a disseminação ser muito grande e começar a aumentar o número de hospitalizações.

4) O que tem de ser feito?

Análises como: em grandes cidades, como Rio e São Paulo, como vai ser o comportamento? O comércio e a indústria continuarão abertos praticamente nos mesmos horários? Vamos ter metrôs e ônibus cheios no mesmo momento? Ou vamos fazer uma coisa escalonada?

Tem várias estratégias que precisam ser pensadas. Isso não significa que elas vão necessariamente ser colocadas em ação. Mas elas precisam ser discutidas e elaboradas.

5) A vacinação vai fazer diferença diante da disseminação da Delta no país?

Algo que ajuda é termos já imunizadas as populações mais vulneráveis: os maiores de 60 anos de idade e as pessoas com fatores de risco. A maioria deles já tem duas doses de vacina.

Mesmo que a vacina não proteja de uma possível infecção, numa população corretamente vacinada a maioria das pessoas que infectarem não necessitarão de hospitalização. Isso é um ponto a nosso favor.

No entanto, nós podemos ter, sim, um aumento no número de pessoas infectadas que transmitem a doença. Isso tem que ser levado em consideração. Essas pessoas vão transmitir para quem está em contato próximo: quem reside na mesma casa ou compartilha local de trabalho.

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