Segunda-feira, 02 de março de 2026
Por Ali Klemt | 1 de março de 2026
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.
Para o que você está fazendo e leia. Se você é um homem ou uma mulher com mais de 30 anos… por favor, leia.
Vamos lá. Heidi Klum surge no Grammy 2026 com um vestido que seria considerado, bem…ousado como sempre. Porém, o que chamou a atenção foi a silhueta. Ela, uma das grandes modelos do século XX, uma deusa alemã em carne e osso, agora acumula alguma “carne” a mais. Está mais cheinha mesmo. E o interesse geral não recaiu sobre seu trabalho, sua vida pessoal, nem mesmo sobre a produção para o evento. O que lhe perguntaram foi: “Você está grávida?”
Sim. Acredite. Essa foi a pergunta para uma mulher de 52 anos. Risco absoluto. Porém, o que me surpreende é a falta de noção mesmo, porque a probabilidade de ela estar grávida nessa idade seria muito, muito pequena.
Só que foi aí que a Heidi mostrou porque se consolidou como figura relevante no cenário mundial por tantos anos. Não basta ser linda. É preciso ter personalidade. E ela tem.
A resposta, direta e sem rodeios: “Não. Eu não estou grávida. É menopausa.”
Agora, sim, começamos a conversa que realmente importa: um olhar social que ainda confunde barriga com gravidez, mas, pior, considera envelhecimento feminino com “fracasso estético”. Logo, precisa encontrar desculpa para o ganho de peso.
Veja, envelhecer é o que nos acontece se dá tudo certo. E, sim, tem seu ônus. Se você é homem e está concordando com essa frase, acredite: para a mulher, o desafio é muito, muito maior.
Afinal, reflitamos: se Heidi Klum, com acesso a nutricionista, personal e tratamento estético, tem mudanças no corpo nessa fase, que chance a mulher comum tem de escapar ao metabolismo que virou trem desgovernado aos 45+? Sim, você adivinhou. Pouquíssimas. Daí a importância de termos CONSCIÊNCIA do que acontece no nosso corpo.
Ninguém nos prepara para essa transição, embora TODAS as mulheres passem por ela. Não é louco isso? Essa falta de transparência? Esse medo de encarar algo que é inevitável? Essa negação de algo que é tão natural que deveria, inclusive, ser celebrado?
Então, bora falar sobre isso. Chamamos de perimenopausa a fase que começa anos antes da última menstruação — pode ser entre 40 e 50 anos ou mais cedo em alguns casos. Nela, os níveis de estrogênio e progesterona começam a oscilar descontroladamente. Essa instabilidade que causa:
* ciclos menstruais irregulares
* ondas de calor e sudorese
* insônia
* alterações de humor
* ansiedade e irritabilidade
* dificuldade de concentração e lapsos de memória
* ganho de peso e mudança na distribuição da gordura corporal
E sim: é essa fase antes da menopausa que traz tanto desconforto físico quanto emocional — e ninguém nunca explicou direito pra nós. Tal período ocorre antes da menopausa definitiva. Pode começar por volta dos 40 anos (às vezes até antes) e dura, em média, de 4 a 8 anos. Os hormônios (principalmente estrogênio e progesterona) oscilam de forma irregular. A mulher ainda menstrua, embora com ciclos imprevisíveis.
Ou seja, é uma fase de instabilidade hormonal. E é nessa fase que muitas mulheres pensam: “Eu não me reconheço.” Calma. Isso tem base neuroendócrina. Você não está louca.
E tem mais! O estrogênio não regula só o ciclo menstrual. O hormônio influencia a serotonina (humor), a dopamina (motivação), a regulação do sono, a memória, a resposta ao estresse. Como se não bastasse, na perimenopausa, como os níveis hormonais sobem e descem de forma caótica, o cérebro também sofre essa montanha-russa. Por isso o risco aumentado de sintomas depressivos, ansiedade, irritabilidade intensa, piora de TDAH pré-existente, crises de pânico em mulheres que nunca tiveram.
Não é “frescura”, tá? É neurobiologia.
A perimenopausa é a travessia para uma nova fase — e é nela que a maioria das mulheres sofre em silêncio.
Nessa fase, o corpo continua produzindo estrogênio, só que de forma irregular. A mulher fica naquela montanha-russa hormonal em que alguns ciclos tem muito hormônio, outros têm pouco, e isso mexe tanto com o corpo quanto com o cérebro.
Por isso aquela sensação de que “de repente o corpo mudou”: não é vontade. Não é falta de esforço. É biologia. Biologia que a sociedade insiste em tratar como escolha estética.
Daí vem a pergunta: como fica a saúde mental nessa transição?
Para tornar tudo mais profundo (e complexo), estudos mostram que a transição menopausal (incluindo a perimenopausa) está fortemente associada a alterações emocionais e de humor, muito além da simples “alteração de humor passageira”. Pesquisas indicam: aumento de sintomas depressivos e ansiosos durante a transição menopausal, maior instabilidade do humor relacionada às oscilações de estrogênio e percepção subjetiva de problemas de concentração e “neblina cerebral”.
Em outras palavras: a perimenopausa é uma janela de vulnerabilidade neuropsicológica — alguém aí ainda acha que tudo isso é “coisa da cabeça” porque a pele não está esticada?
O corpo afunda no estigma justamente quando deveria subir no pódio da informação. Enquanto a sociedade continua vendo “barriga, ganho de peso, pele caída”, a medicina vê flutuações hormonais que alteram neurotransmissores, sono e bem-estar emocional.
A menopausa e sua fase de transição — a perimenopausa — não são problemas a serem mascarados por filtros ou dietas malucas: são fases biológicas que merecem educação, cuidado e políticas de saúde que abracem a mulher por completo. Mais! Que a vejam pela lente da compreensão.
O que aconteceu com Heidi Klum no Grammy não é sobre um vestido. Não é sobre curvas.
Não é sobre idade. É sobre como a sociedade dorme no volante quando o corpo feminino deixa de ser “reprodutivo” e começa a ser “vivo”. E apenas isso. E nada mais.
E se perguntar “Está grávida?” virou reflexo cultural, talvez devêssemos perguntar antes: Você sabe realmente o que é perimenopausa e por que ela mexe com a mente e com o corpo? Se a resposta ainda for “não”, então o problema não é a Heidi nem o espelho dela — é o espelho coletivo que ainda insiste em nos olhar pelo ângulo errado.
Mulheres são feitas de puro hormônio. Nossa vida é regulada por eles. Puberdade. Ciclos mensais. Gravidez. Pós-parto. Perimenopausa. Menopausa.
E, ainda assim, a sociedade insiste em agir como se o corpo feminino fosse um projeto estático de vitrine.
Tem que ser muito, muito mulher para subir em um tapete vermelho aos 52 anos, ouvir a pergunta mais previsível do mundo e responder com a palavra que ainda constrange os desinformados: menopausa.
Sem desculpa. Sem vergonha. Sem filtro.
Heidi não estava pedindo licença para envelhecer. Ela estava vivendo.
E essa…essa é a grande lição: o problema nunca foi o corpo que muda. É a cultura que não evolui.
Então, da próxima vez que alguém olhar para uma mulher e questionar o seu corpinho, sugiro que reflita por um instante. Você entende o que está acontecendo ali — ou só está repetindo o reflexo automático de uma sociedade que ainda não sabe lidar com mulheres que continuam vivas depois dos 40?
Menopausa não é decadência. É travessia. E atravessar exige coragem.
E coragem, senhores… convenhamos: é para poucos.
Ali Klemt – @ali.klemt
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
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