Domingo, 10 de maio de 2026
Por Redação O Sul | 21 de abril de 2026
O presidente dos EUA, Donald Trump, nunca teve muitos amigos entre os líderes globais. A sua personalidade e algumas de suas políticas despertam ampla rejeição de governantes de vários países. Alguns deles buscaram cultivar uma aparente proximidade com o presidente americano, movidos por distintos interesses, políticos, econômicos ou de segurança. A guerra no Irã, porém, está fazendo Trump perder até mesmo parte dessas poucas relações de conveniência. O líder do país mais poderoso do mundo nunca esteve tão isolado.
Esse isolamento ficou evidente na questão do bloqueio do estreito de Ormuz pelo Irã. Trump pediu ajuda aos principais aliados dos EUA para tentar reabrir a principal via marítima do Oriente Médio, por onde costumavam passar 20% do petróleo e do gás natural consumidos diariamente no planeta. Ninguém respondeu ao apelo. Quando Trump anunciou, há cerca de dez dias, a intenção de bloquear os portos iranianos, afirmou que outros países participariam da operação. Novamente, ninguém apareceu.
Trump nunca respeitou aliados. Aliás, o termo aliado mal se aplica à sua visão de mundo. Aliado significa estar junto, estar ligado por um interesse comum maior. É uma relação ética de compromisso a priori, fundamental, que independe de eventuais discordâncias em questões corriqueiras. Com Trump, porém, nada é perene, tudo é transacional e imediato. Os arranjos mudam de acordo com a conveniência do momento. Ele parece ter uma visão da vida como um jogo de soma zero, no qual, para um lado ganhar, o outro tem de perder. Ele levou esse padrão para a política externa americana.
Foi assim que Trump rifou a relação mais umbilical dos EUA. Ao insistir na proposta estapafúrdia de anexar o Canadá e ao seguidamente humilhar o ex-premiê canadense Justin Trudeau, o presidente conseguiu alienar um dos mais aliados mais fiéis e importantes de Washington. Questões parecidas, como a ideia de tomar a Groenlândia e a fixação em impor tarifas comerciais, consolidaram a sua imagem de um líder irascível e não confiável.
Ainda assim, seja por alinhamento político ou por necessidade, os líderes de alguns países tentaram criar e manter uma relativa proximidade com o presidente americano. Hoje, após um mês e meio de guerra no Irã, mesmo essas poucas relações mais próximas, algumas até pessoais, estão ameaçadas. É o caso do Reino Unido, onde o premiê Keir Starmer buscou preservar o que os britânicos chamam de “relação especial” com os EUA. O país foi o primeiro a fechar um acordo comercial com Washington, logo após o tarifaço, dando uma importante vitória política a Trump. Mas a guerra no Oriente Médio expôs uma relação nada especial. Starmer vetou o uso de uma base aérea britânica para ações de ataque contra o Irã e recusou o pedido de ajuda para reabrir Ormuz. Trump respondeu que a Marinha britânica tinha navios velhos e que seus dois porta-aviões eram “brinquedos” se comparados aos americanos; depois ameaçou romper o acordo comercial recém-assinado.
A divergência com a premiê italiana, Giorgia Meloni, foi mais inesperada, pois a afinidade ideológica os aproximou desde cedo. A premiê italiana se apresentou inicialmente como uma ponte entre a Europa e os EUA, como uma interlocutora privilegiada da Casa Branca. Tudo isso ruiu neste mês. Meloni também ignorou os apelos de ajuda de Trump e defendeu o papa Leão 14 das críticas do presidente, que chamou de “inaceitáveis”. Logo em seguida, Trump disse estar “chocado”.
Em abril de 2025, Trump recebeu o príncipe herdeiro saudita, Mohammad bin Salman, com pompa e circunstância na Casa Branca. O príncipe é o governante de fato da Arábia Saudita, país para onde Trump fez a primeira viagem oficial nos seus dois mandatos presidenciais. Nas últimas semanas, porém, essa relação deu sinais de desgaste. A Arábia Saudita vem sendo muito prejudicada pela guerra e tem vazado insatisfação com a possibilidade de os EUA fecharem um acordo com o Irã que seja desfavorável para os sauditas.
A guerra abalou ainda a Otan, a aliança militar ocidental, liderada pelos EUA. Trump disse que a Otan cometeu um “erro tolo” ao não apoiá-lo no Irã e que a organização é “inútil”, e ameaçou “um futuro muito ruim” para a aliança. Ele fez críticas similares à Austrália, ao Japão e à Coreia do Sul. Mesmo países tradicionalmente alinhados com Washington, como a Polônia, estão criticando a liderança americana. O presidente do Parlamento polonês chamou Trump de “líder do caos”.
A derrota eleitoral do premiê húngaro, Viktor Orbán, um ícone da direita nacionalista, também ajudou a azedar a relação de Trump com partidos de ultradireita na Europa. Esses partidos temem que a proximidade com o presidente americano os prejudique eleitoralmente, como pode ter acontecido com Orbán, e já estão se distanciando da Casa Branca, num momento em que Trump e os EUA são muito impopulares na Europa.
Esse isolamento crescente do presidente americano é ruim para os EUA e para o mundo. A colaboração entre os países ainda é o principal mecanismo de solução de problemas globais. (Opinião/Jornal Valor Econômico)
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