Sexta-feira, 28 de agosto de 2026
Por Redação O Sul | 7 de abril de 2026
A guerra dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã e o subsequente fechamento do Estreito de Ormuz, rota estratégica por onde passam 20% do petróleo e gás do mundo, fez os preços do petróleo dispararem acima de US$ 100 por barril (cerca de R$ 520) e deixou economistas em alerta. Em meio às escaladas retórica e bélica desde o ataque americano-israelense em 28 de fevereiro, porém, especialistas afirmam que uma crise paralela e menos comentada está surgindo simultaneamente: a ameaça à segurança alimentar global, causada em grande parte pela iminente escassez de fertilizantes, essenciais para a produção de alimentos. Para analistas ouvidos pelo jornal O Globo, os desdobramentos do conflito atual, se não forem enfrentados, serão capazes de transformar uma guerra regional em uma emergência humanitária mundial.
“O que distingue este conflito de guerras anteriores do século XXI é a interrupção simultânea de três pilares da segurança alimentar global: cadeias de suprimentos de alimentos, infraestrutura hídrica e produção de fertilizantes. Trata-se de uma máquina da fome em câmera lenta”, afirmou Michael Werz, pesquisador do CFR especializado em segurança alimentar. “(Isso) em um ano em que especialistas esperam efeitos significativos do El Niño, com possíveis impactos nas colheitas.
Desde o início dos ataques, apenas um número reduzido de embarcações conseguiu atravessar a via marítima, sendo a maioria petroleiros iranianos ou ligados à China que, em geral, seguem rotas próximas à costa iraniana. Em março, o Comitê Internacional de Resgate disse que os atrasos no transporte marítimo estavam interrompendo cadeias de suprimentos e itens sensíveis à temperatura usados em cuidados de saúde, programas de nutrição e distribuição de vacinas. Pelo menos US$ 130 mil (R$ 675 mil) em materiais farmacêuticos urgentes destinados à resposta humanitária no Sudão foram retidos em Dubai.
“As interrupções na cadeia de suprimentos que passa pelo Estreito estão atrasando envios de alimentos que salvam vidas, tanto na região quanto no restante do mundo”, disse Sam Vigersky, pesquisador do Council on Foreign Relations (CFR) e ex-assessor humanitário na missão dos EUA nas Nações Unidas. “Os custos de combustível e de seguro para navios estão aumentando, o que reduzirá os orçamentos de programas de ONGs e agências da ONU que executam iniciativas de segurança alimentar.”
No mês passado, uma nova análise do Programa Mundial de Alimentos (PMA) estimou que quase 45 milhões de pessoas adicionais podem enfrentar fome aguda se a guerra não terminar até o meio do ano e se os preços do petróleo permanecerem acima de US$ 100 por barril. O contingente se somaria às mais de 670 milhões de pessoas que, segundo a ONU, vivem em situação de fome crônica, sendo a África Subsaariana e a Ásia as regiões mais vulneráveis devido à dependência de importações. Na Somália, onde há crises de seca, o preço de alguns produtos essenciais já subiu pelo menos 20% desde o início do conflito.
“A crise já está em curso: o PMA foi forçado a reduzir as rações alimentares para pessoas em condições de fome no Sudão e só consegue apoiar uma em cada quatro crianças com desnutrição aguda no Afeganistão, atualmente a pior crise de desnutrição do mundo”, alertou Werz. “Isso ocorre antes mesmo de o choque dos fertilizantes se desenvolver plenamente. Com a alta dos preços de alimentos e do transporte, a ajuda humanitária será ainda mais desafiadora.”
Segundo artigo publicado pelo especialista, a água potável também está em risco. Ataques iranianos a usinas de dessalinização no Bahrein e bombardeios próximos a um complexo com 43 instalações do mesmo tipo na Arábia Saudita, disse, indicam mais uma camada da guerra. A vulnerabilidade é elevada porque os países do Golfo dependem amplamente dessa tecnologia: “400 plantas nos países do Conselho de Cooperação do Golfo produzem quase 40% da água dessalinizada do mundo. No Kuwait, 90% da água potável depende dessas instalações; em Omã, 86%; e na Arábia Saudita, 70%”, escreveu. As informações são do jornal O Globo.
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