Quinta-feira, 27 de agosto de 2026
Por Redação O Sul | 26 de agosto de 2026
Após alguns anos, os sinais ficaram evidentes. Uma mulher no sul do Brasil saiu de casa por um breve período e, quando voltou, percebeu situações estranhas: a cama estava desarrumada, e fluidos corporais estavam espalhados pelo lençol. Pressionada, sua filha rompeu o silêncio e fez uma revelação brutal: disse que era abusada sexualmente pelo pai sempre que a mãe estava fora. Tudo começou quando ela tinha oito anos, algum tempo antes. A menina contou que também era molestada pelo tio. Com a denúncia, ambos foram presos.
Situações dramáticas semelhantes à dessa garota brasileira são relatadas pela psicanalista argentina Susana Toporosi no livro “Em carne viva” (Blucher). Com grande vivência clínica com crianças e adolescentes, Toporosi diz que o sofrimento vivido pela parcela infantojuvenil vítima de abuso pode produzir experiências traumáticas, agravadas pelo fato de elas não terem a capacidade psíquica de compreender e elaborar a violência ali envolvida.
“A primeira coisa que o trauma provoca é uma distorção na maneira de lembrar e esquecer”, descreve Toporosi, que estará no Brasil em setembro para participar, em Vitória (ES), do Congresso de Psicopatologia Fundamental – internacional e brasileiro -, organizado pela Associação Universitária de Pesquisa em Psicopatologia Fundamental.
Como a experiência do abuso sexual não pôde ser simbolizada, ela retorna por diferentes vias, como sintomas, repetições, angústias ou manifestações corporais, segundo a leitura da psicanálise. “O abuso gera confusão diante do inesperado e desperta intensa culpa, especialmente quando a criança experimenta alguma sensação corporal que possa ser interpretada como prazer”, afirma Toporosi. “Trata-se sempre de uma erotização alienante, porque crianças não compreendem a sexualidade adulta, vivenciando-a como algo estranho, invasivo e excessivo.”
O quadro pode ser agravado quando a criança não encontra um adulto capaz de acreditar em seu relato ou de protegê-la. “O abuso sexual costuma ocorrer no espaço mais íntimo da família, justamente onde crianças e adolescentes deveriam receber os cuidados indispensáveis ao seu desenvolvimento, dada a dependência que possuem em relação aos adultos”, afirma.
Para Toporosi, que é coordenadora de Saúde Mental da Adolescência no Hospital Infantil Ricardo Gutiérrez, em Buenos Aires, a descrença, o silêncio, a culpabilização da vítima e a negligência institucional podem produzir uma revitimização, tornando o trauma ainda mais intenso.
Quando a criança encontra coragem para romper o segredo e o ambiente familiar ou escolar desmente sua fala, ocorre o que Toporosi qualifica de “uma retraumatização profunda”. “Na prática clínica, observa-se que as sequelas mais difíceis de reparar não decorrem apenas da agressão em si, mas da incredulidade e do abandono sofridos por parte de figuras de apego, como mães que se recusam a acreditar no relato para proteger o agressor”, diz.
A maioria das vítimas de abuso sexual na infância é composta pelo sexo feminino: meninas e adolescentes de até 14 anos somam 85,6% das ocorrências, frente a 14,4% do sexo masculino, de acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Isso não significa, porém, ignorar a violência sexual contra meninos. Mas, segundo Toporosi, na Argentina, os dados indicam que a quase totalidade dos agressores é formada por homens, o que evidencia as relações de poder em nossa sociedade.
A autora cita dois psicanalistas – Alejandro Vainer e Carlos Barzani – que classificaram esse fenômeno como “masculinidade da submissão”, que teria gerado uma massa de homens empobrecidos de direitos, mas agarrados à ilusão de poder. Na perspectiva dos dois, esse mal-estar, recalcado e não elaborado, é descarregado na forma de violência física e psicológica sobre mulheres, meninas, meninos e populações marginalizadas. Na leitura de Toporosi, trata-se do motor que propulsiona a escalada de feminicídios, transfeminicídios e da violência sexual intrafamiliar.
“Cada agressão sexual funciona como um aviso destinado a preservar a ordem de poder vigente. Trata-se de um problema estrutural e político, não de uma falha individual”, diz a psicanalista.
O quadro pode ser ainda mais traumatizante se o agressor ocupar um lugar de cuidado, autoridade ou afeto, ocorrendo uma ruptura da confiança básica da criança no outro, observa Toporosi. De acordo com a autora, isso compromete não apenas o vínculo com o agressor, mas a capacidade futura de estabelecer relações seguras. “O adulto abusador perverte o poder que essa relação de dependência lhe confere e o utiliza para obter satisfação sexual. Por isso, afirmamos que o abuso sexual é, antes de tudo, um crime de poder que utiliza a sexualidade como instrumento”, afirma a psicanalista.
A questão do abuso sexual de crianças e adolescentes ganha uma dinâmica ainda mais nociva em virtude de usos tóxicos das tecnologias. Adultos mal-intencionados utilizam a ocultação de identidade e o monitoramento de perfis digitais para se infiltrar na intimidade de crianças e adolescentes, comenta a autora. O Anuário Brasileiro de Segurança Pública mapeou crimes de produção, posse e distribuição de material de abuso sexual infantil no Brasil. Os dados revelam a predominância de 84,2% de meninas entre as vítimas e 15,8% de meninos, sendo que 78,3% estão na faixa entre os adolescentes.
Na visão da psicanalista, o surgimento recente de ferramentas de inteligência artificial capazes de gerar falsificações profundas e pornografia sintética – como observado em episódios recentes envolvendo estudantes que manipularam imagens de suas colegas de escola – demonstra a sofisticação da violência de gênero.
Qual é a saída? A psicanálise é uma das possibilidades, entretanto, a autora não propõe que se elimine o acontecimento traumático – é impossível. Seu trabalho consiste em oferecer um espaço em que aquilo que permaneceu como excesso possa gradualmente adquirir representação e ser integrado à história do sujeito. Em outras palavras, a proposta é buscar a transformação de uma experiência que permaneceu como pura violência em algo passível de elaboração psíquica. As informações são do jornal Valor Econômico.
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