Domingo, 07 de junho de 2026
Por Redação O Sul | 7 de junho de 2026
Não fazem sentido as críticas do governo americano ao Pix. A conclusão da investigação contra o Brasil movida pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) reproduz reclamações de bandeiras de cartões de crédito que consideram sofrer concorrência desleal. Basicamente, elas têm duas queixas. Primeiro, dizem que o Banco Central (BC) atua, ao mesmo tempo, como regulador e operador desse meio de pagamento digital, incorrendo em conflito de interesses. Segundo, alegam que os demais meios não têm como concorrer com o sistema de custo zero oferecido pelo governo. É evidente que nenhuma das queixas para de pé.
O Pix é um sistema aberto que pode ser usado por qualquer empresa, inclusive as americanas — a própria Visa criou uma subsidiária para explorar o mercado de transações instantâneas valendo-se de iniciativas do BC. E sistemas de pagamentos instantâneos não são exclusividade brasileira. Antes do Pix, a Índia já tinha sua Interface Unificada de Pagamentos (UPI). No Reino Unido, existe o Faster Payments, na Austrália o NPP, em Cingapura o PayNow, na Tailândia o PromptPay. Os próprios americanos criaram o Zelle, serviço da Early Warning Services — controlado por grandes bancos como JP Morgan Chase e Bank of America —, que também sofre resistência das bandeiras de cartão, receosas de perder a receita da cobrança de taxas.
O BC não opera o Pix por acaso. O sistema financeiro brasileiro tem longa história de convívio com surtos inflacionários. Para proteger o dinheiro dos efeitos corrosivos da inflação, as instituições financeiras vendiam aplicações de prazos cada vez mais curtos. Para isso, se viram obrigadas a desenvolver tecnologias avançadas. Um efeito inesperado do descontrole de preços foi ter florescido no Brasil um dos sistemas financeiros mais ágeis e modernos do mundo, cuja operação era centralizada no BC. Antes do Pix, já havia compensação em 48 horas de cheques, diária de DOCs e instantânea de TEDs — enquanto os americanos mantinham o hábito de mandar pelo correio cheques que por vezes levam semanas para cair na conta depois de depositados.
A ideia de um sistema instantâneo de pagamentos foi uma evolução natural do que já existia. Ela surgiu no BC em 2016, e o Pix foi lançado em 2020, com a intenção de aumentar a concorrência, reduzir o custo das transferências bancárias e ampliar a inclusão financeira. Os objetivos foram amplamente atingidos, e a bancarização crescente da população beneficia as próprias empresas americanas que reclamam. Mais de 170 milhões de brasileiros já fizeram pelo menos um Pix. As operações passam de 200 milhões por dia e, em janeiro, somaram 7 bilhões. Em outubro, transitaram pelo sistema mais de R$ 3 trilhões, ou três PIBs mensais.
Os cartões de crédito se adaptaram aos costumes brasileiros e hoje vivem mais dos juros implícitos no parcelamento que das taxas que afirmam perder para o Pix. Há temor de que o sistema se espalhe pelo mundo e até de que sirva de base a uma moeda alternativa ao dólar. Ora, chega a ser irônico que os Estados Unidos, pioneiros em avanços na economia digital, se incomodem com o uso inteligente de tecnologias de ponta. Em vez de acionar lobbies em Washington, as empresas americanas deveriam tratar de acordar para não perder a corrida global de pagamentos instantâneos para sistemas desenvolvidos em países como Índia ou Brasil. Com informações do portal O Globo.
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