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Variedades Hobby predileto: pôquer ganha espaço na rotina de Neymar e vira coisa séria

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Neymar tem relação de mais de uma década com o pôquer, intensificada a partir de 2023. (Foto: Divulgação/BSOP)

Enquanto vivia o sonho de disputar a primeira Copa do Mundo, em 2014, Neymar descobriu outra paixão na concentração da seleção brasileira: o pôquer. Foi entre os companheiros que conheceu a sensação de adrenalina sem o esforço físico de um jogo de futebol. Mais de uma década depois, no seu adeus aos Mundiais, após a eliminação do Brasil, encontrou conforto novamente em outro tipo de gramado: a mesa acarpetada verde da World Series of Poker (WSOP), principal campeonato da modalidade, disputado em Las Vegas, nos Estados Unidos. Mas seu all-in não deu certo, e ele deixou a competição antes da zona de premiação.

Considerado um esporte da mente pela International Mind Sports Association (IMSA), como o xadrez, por exemplo, o pôquer se tornou o grande hobby do atacante. Ao longo dos últimos 12 anos, Neymar passou a frequentar etapas do Brazilian Series of Poker (BSOP), principal circuito da América Latina, da WSOP, e do European Poker Tour (EPT), em Barcelona, na Espanha. Tornou-se embaixador da PokerStars e acumulou premiações em torneios nacionais e internacionais — os números não são precisos, mas o que se tem documentado mostra um lucro de mais de R$ 2,4 milhões.

A relação cresceu paralelamente à carreira no futebol. Em 2015, poucos meses depois da conquista da Liga dos Campeões pelo Barcelona, Neymar apareceu pela primeira vez no EPT ao lado de Gerard Piqué e iniciou a parceria com a PokerStars. Depois da queda do Brasil para a Croácia na Copa de 2022, aproveitou as férias para disputar a WSOP. Até momentos com a família já foram paralisados para não perder um torneio on-line.

Durante a recuperação da ruptura do ligamento cruzado anterior do joelho esquerdo, sofrida em outubro de 2023, o jogador voltou a aparecer com frequência em mesas on-line e torneios presenciais. Desde então, foram ao menos 20 participações públicas entre eventos ao vivo e virtuais.

Para Rafael Moraes, CEO do BSOP, primeiro brasileiro a superar US$ 1 milhão em premiações on-line e um dos principais nomes da modalidade no país, porém, a relação de Neymar com o jogo vai além do business:

“Neymar é o cara que conheço, em mais de 20 anos em torneios, que mais tem vontade de ganhar. Quando conheceu o pôquer, percebeu que era um jogo mental, que podia estudar, treinar e evoluir. O futebol continua sendo sua grande paixão. O pôquer virou a segunda.”

Neymar é um dos milhares de participantes do BSOP, que reúne de 20 mil a 30 mil jogadores por temporada e distribui a terceira maior premiação do esporte brasileiro (R$ 134 milhões em 2025), atrás apenas da Copa do Brasil e do Brasileirão.

Embora esteja distante da rotina e das técnicas de um profissional — que pode disputar até 800 torneios on-line por mês e cerca de 200 presenciais por ano —, Neymar joga com estratégia. Costuma revisar mãos, discutir decisões com Moraes e André Akkari, campeão mundial e um dos responsáveis por introduzi-lo profundamente na modalidade. Busca entender também detalhes como posição na mesa, tamanho dos stacks (quantidade de fichas do jogador) e perfil dos rivais.

Os números mostram que o aprendizado não parou na teoria. Em torneios com resultados públicos registrados, Neymar soma pouco mais de R$ 300 mil em premiações nesta temporada. Também alcançou mesas finais importantes no BSOP. É uma espécie de amador talentoso. Para Moraes, porém, a característica que mais chama a atenção não aparece nas estatísticas.

“Neymar é um atacante total, leva o jeito dele na vida para o pôquer. É agressivo, blefa bem, e é muito difícil blefar contra ele. Nos momentos de maior pressão, cresce. É igual a um pênalti decisivo. Ele não sente essa pressão”, declara Moraes, que criou com o jogador o BSOP ONE Neymar Jr, torneio realizado em dezembro, após o fim da temporada, apenas para convidados.

Há outro componente na relação. Neymar, que convive com o assédio desde a adolescência, encontrou no pôquer um dos poucos ambientes em que escapa, ainda que parcialmente, da condição de celebridade.

“É o lugar onde ele menos tira foto. Tudo o que faz vira um evento. No pôquer, Neymar senta à mesa e é tratado como mais um jogador. Isso pesa para que goste tanto. Ele consegue reunir amigos e família, fazer torneios privados e competir”, conta Moraes.

Na avaliação do psicólogo do esporte Yan Cintra, esse comportamento não é incomum entre atletas de elite. Sem analisar especificamente o caso de Neymar, ele explica que esportistas de alto rendimento frequentemente buscam novos espaços para exercer a competitividade quando estão longe da modalidade principal:

“Quando toda a identidade está concentrada no papel de atleta, momentos como lesões, derrotas ou aposentadoria costumam ser vividos com mais sofrimento. Ter outros interesses amplia essa identidade e ajuda a pessoa a perceber que vale mais do que apenas seu desempenho esportivo.”

Segundo Cintra, atividades como o pôquer também podem preservar sensações importantes em períodos de afastamento do campo:Durante uma lesão, por exemplo, o atleta perde parte da rotina e da oportunidade de experimentar competência por meio do treino e da competição. Um hobby pode manter essas necessidades psicológicas parcialmente atendidas. O importante é que a segunda atividade complemente, e não substitua, a principal.”

Essa fronteira, porém, nem sempre é percebida da mesma forma pelo público. Nos últimos anos, Neymar voltou ao centro das discussões ao aparecer jogando pôquer em momentos em que o Santos estava em campo. No ano passado, foi visto disputando partidas on-line em um camarote da Vila Belmiro durante um jogo. Há poucos dias, participou do BSOP Winter, em São Paulo, enquanto o clube jogava os playoffs da Sul-Americana. Poupado da partida, treinou pela manhã antes de viajar para o torneio.

Procurado, o Santos informou que os atletas têm autonomia durante as folgas ou quando não são relacionados para as partidas. As informações são do jornal O Globo.

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