Segunda-feira, 15 de junho de 2026
Por Redação O Sul | 7 de dezembro de 2015
“Quando Mario abraçou a mãe, parecia que nunca mais iria largá-la.” Assim observou de perto Manuel Gonçalves, neto das Avós da Praça de Maio presente ao encontro. A reunião de Mario Bravo com Sara foi um momento histórico para uma geração argentina que vive em busca da reconciliação depois de ter tido seus pais mortos em centros de tortura e extermínio na ditadura militar de 1976 a 1983. Ao contrário da maioria, ele encontrou a mãe viva. Seu pai, no entanto, ainda consta como desaparecido.
“Agora tenho seis irmãos e sobrinhos, e muito gasto para o Natal. Tudo o que vier será lindo”, disse, em entrevista coletiva, o recém-descoberto “neto”, com a mulher e as representantes da organização. “Choramos muito. Foram anos de buscas. Temos que aproveitar a vida que temos pela frente. Agora temos que ser positivos, pensar adiante. O que aconteceu foi muito feio, mas já passou.”
Sara foi sequestrada em julho de 1975 por militares que se articulavam para dar o golpe que derrubaria a presidente María Estela Perón, a Isabelita – e mergulharia o país em sete anos de ditadura –, quando voltava do trabalho de madrugada. Era acusada de integrar uma organização clandestina de esquerda. Deu à luz em 1976, meses antes de ser solta. Tudo o que ouviu nos poucos segundos com o filho, vendada, foi o choro do bebê, sem saber se ele era menino ou menina – por um palpite correto, sempre imaginou como ele seria enquanto homem adulto.
Mas temia que a busca pelo filho lhe custasse a vida ou a de suas outras duas filhas. Trinta anos depois, procurou a Secretaria de Direitos Humanos para ter seu DNA incluído em um banco de dados. E quase uma década depois recebeu um telefonema dizendo que seu filho havia sido achado. “Estas coisas não acontecem por milagre, magia, mas sim porque há um povo argentino que abre caminhos que assombram o mundo todo”, disse Estela de Carlotto, líder do grupo.
Desde jovem, Bravo desconfiava que não era filho biológico de sua família. Parentes sabiam que ele era adotado, mas não contavam igualmente por medo de represálias. Segundo ele, seus pais foram enganados ao adotá-lo (“Tinham perdido uma filha antes, e no interior, poucos sabiam o que acontecia”). Em 2007, ele levou a busca adiante, esperando até ser contatado por Gonçalves.
Os sobrinhos biológicos já haviam criado um grupo no aplicativo de mensagens WhatsApp chamado “Bem-vindo, tio Mario’”, tudo para recepcioná-lo. De Las Rosas, em Santa Fé, Bravo percorreu 900 quilômetros de ônibus para conhecer a mãe. Mas ainda não sabe se mudará de sobrenome. A identidade do pai não foi informada.
“O encontro foi muito lindo e emotivo. Tenho a sorte de ter encontrado minha mãe com vida, e isso é um milagre para mim. É muito emocionante. Quando você encontra sua mãe, vê todo um filme da vida em preto e branco passando. Você se lembra de quando era pequeno, de como foi criado e como alguém te buscou”, disse, em lágrimas, agradecendo à organização.
Dos 119 netos dos mais de 500 centros de tortura e extermínio achados pelas Avós e pelo Estado argentino, Bravo é apenas o quinto cuja mãe sobreviveu aos porões do terror.
Gonçalves e Bravo souberam do resultado em 19 de novembro, mas o grupo decidiu adiar a revelação para não influenciar politicamente o segundo turno das eleições presidenciais. A organização se diz “extremamente contente” porque a revelação “é uma vitória não só política, mas dos direitos humanos e do povo argentino”.
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